Portugal tem uma história gráfica longuíssima, da azulejaria à Imprensa Nacional, do primeiro livro impresso em 1487 às oficinas tipográficas. Mas o design gráfico como profissão moderna, comunicação visual consciente, ao serviço da publicidade, da cultura e das marcas, é uma história mais recente, do século XX, e fascinante. É feita de pioneiros estrangeiros, de uma geração modernista brilhante, de uma relação tensa com o poder, e de um caminho até ao reconhecimento internacional de hoje.
Esta é a história do design gráfico português, o complemento nacional à história universal do design.
Antes do design: a arte comercial
No início do século XX, não havia “designers gráficos” em Portugal, havia artistas, ilustradores e tipógrafos que faziam cartazes, rótulos, capas e anúncios. A publicidade era jovem, a indústria crescia, e a comunicação visual era, sobretudo, arte aplicada ao comércio. Faltava a profissionalização, a consciência de uma disciplina própria. Isso mudaria nos anos 1920 e 1930, com a chegada do modernismo, e de uma figura decisiva.
Fred Kradolfer, o pioneiro vindo de fora
Um dos nomes fundadores do design gráfico moderno em Portugal não era português: Fred Kradolfer (1903-1968), um artista suíço que se fixou em Lisboa por volta de 1924. Trouxe consigo o rigor e a linguagem do modernismo centro-europeu e tornou-se uma figura central da publicidade e da arte gráfica portuguesas, cartazes, anúncios, capas, cenografia, decoração.
Kradolfer não trabalhou sozinho: foi um catalisador de toda uma geração. Em torno dele e dos estúdios de publicidade da época reuniu-se um grupo notável de artistas-designers que definiram o visual do Portugal moderno.
Foi na publicidade que o design gráfico português ganhou forma profissional. Em 1932, José Rocha fundou em Lisboa o ETP, Estúdio Técnico de Publicidade, um dos primeiros espaços a juntar arte, técnica e estratégia comercial num trabalho organizado. Estes estúdios foram as primeiras "agências" e as primeiras escolas informais de design do país, onde a arte aplicada se transformou em profissão.
A geração modernista
Os anos 1930 e 1940 deram uma geração brilhante de criadores que cruzavam ilustração, pintura e design gráfico, muitos deles ligados às revistas, à publicidade e à edição. Nomes como Bernardo Marques, Carlos Botelho, Thomaz de Mello (Tom), Emmérico Nunes, Paulo Ferreira e o multifacetado Almada Negreiros (também pintor e escritor) marcaram o visual da época com uma linguagem moderna, gráfica, cosmopolita.
Era um modernismo de cor, geometria e síntese, sintonizado com o que se fazia na Europa, mas com um sabor português. Capas de revistas, cartazes de cinema e turismo, anúncios: a comunicação visual portuguesa entrava, finalmente, no século XX.
Design e poder: o peso do Estado Novo
Aqui a história ganha uma camada complexa, que é preciso contar com honestidade. Grande parte deste talento gráfico foi, nas décadas de 1930-40, mobilizado pelo Estado Novo, o regime autoritário de Salazar, através do SPN, Secretariado de Propaganda Nacional (mais tarde SNI), dirigido por António Ferro.
Ferro, um intelectual ligado ao modernismo, acreditava numa “política do espírito” e usou os melhores artistas e designers para criar uma imagem moderna e sofisticada do regime: cartazes, exposições (como a monumental Exposição do Mundo Português, de 1940), publicações, identidade visual do Estado. O resultado é um paradoxo desconfortável: design modernista de grande qualidade ao serviço de um regime não democrático.
A história do design está cheia destes dilemas, o Construtivismo russo serviu a revolução soviética, o design alemão serviu propósitos vários. O caso português lembra que o design é uma ferramenta poderosa e neutra na técnica, mas nunca neutra no uso: comunica com eficácia ao serviço de qualquer mensagem, boa ou má. É uma das razões por que pensar a ética do que se comunica faz parte da maturidade de um designer.
Sebastião Rodrigues e a maturidade do ofício
No pós-guerra surge a figura que muitos consideram o pai do design gráfico moderno português: Sebastião Rodrigues (1929-1997). Autodidata, elevou o design nacional a um patamar de excelência e personalidade, combinando o rigor moderno com uma sensibilidade culta à cultura portuguesa (a tradição popular, a azulejaria, a arte).
O seu trabalho para editoras, revistas e, sobretudo, para a Fundação Calouste Gulbenkian tornou-se referência absoluta, e a Gulbenkian (criada em 1956) foi, ela própria, um mecenas decisivo, dando ao design e à cultura um espaço de qualidade e liberdade que o mercado comercial nem sempre permitia. Sebastião Rodrigues provou que se podia fazer, em Portugal, design de craveira europeia e com voz própria.
O 25 de Abril e a explosão gráfica
A Revolução de 25 de Abril de 1974 trouxe uma explosão de comunicação visual. Da noite para o dia, as ruas encheram-se de cartazes políticos, murais e propaganda dos vários partidos e movimentos, uma efervescência gráfica crua, urgente, vibrante, feita por artistas e anónimos. Foi, talvez, o momento em que o design gráfico mais entrou na vida quotidiana e política dos portugueses.
Com a democracia veio também a profissionalização: o crescimento da publicidade, a chegada de novas tecnologias, a criação e o reforço do ensino do design (escolas e cursos superiores), e o aparecimento de uma geração que já se assumia, de pleno direito, como designers, não como artistas que faziam design por acaso.
Da democracia ao reconhecimento global
Das décadas de 1980 e 1990 até hoje, o design português amadureceu e abriu-se ao mundo. A revolução digital, a entrada na Europa, a circulação internacional e uma nova geração de escolas e estúdios criaram um setor diverso e ambicioso, em identidade, editorial, embalagem, tipografia e digital.
E o reconhecimento internacional chegou: estúdios e designers portugueses passaram a ganhar prémios lá fora, a entrar para a prestigiada AGI, a ver o seu trabalho exposto e citado mundialmente. Nomes como João Machado, R2, Henrique Cayatte, Eduardo Aires (e a celebrada marca do Porto) ou o tipógrafo Mário Feliciano são a face atual dessa projeção, uma história que contamos em detalhe nos designers portugueses premiados no estrangeiro.
Confusões comuns
“Portugal não teve design antes dos computadores.” Teve, e de grande qualidade. Desde os anos 1920-30, com Fred Kradolfer e a geração modernista, havia design gráfico profissional, nos estúdios de publicidade, nas revistas, nos cartazes. O computador (anos 1980-90) transformou a prática, não a inventou.
“O design do Estado Novo era atrasado.” Tecnicamente, era frequentemente moderno e sofisticado, esse é precisamente o paradoxo. Bons designers fizeram propaganda visualmente avançada para um regime autoritário. A qualidade gráfica não garante a bondade da mensagem.
“O design português é uma cópia do estrangeiro.” Houve sempre influências (e até pioneiros estrangeiros como Kradolfer), mas desenvolveu-se uma voz própria, visível em Sebastião Rodrigues e nos estúdios atuais, que cruzam o rigor internacional com referências culturais portuguesas.
“Reconhecimento internacional é coisa só de agora.” A projeção atual é maior, mas a qualidade vem de longe. Sebastião Rodrigues já fazia, há décadas, trabalho de nível europeu. O que mudou foi a visibilidade e a circulação global.
Em resumo
O design gráfico português moderno nasceu nos anos 1920-30, com o pioneiro suíço Fred Kradolfer e os estúdios de publicidade, floresceu com uma geração modernista brilhante, e viveu o paradoxo de servir, com grande qualidade, a propaganda do Estado Novo (via SPN/SNI de António Ferro). No pós-guerra, Sebastião Rodrigues deu-lhe maturidade e voz própria, com a Gulbenkian como mecenas; o 25 de Abril trouxe a explosão dos cartazes e a profissionalização; e as últimas décadas levaram-no ao reconhecimento internacional.
É uma história de talento, de tensões e de afirmação, a prova de que, num país pequeno, a comunicação visual soube sempre estar à altura do seu tempo. Conhecê-la é valorizar uma tradição que, longe de ser periférica, merece o seu lugar na história do design.