Quando se fala de grandes nomes do design gráfico, vêm à cabeça os suíços, os americanos, os holandeses. Mas Portugal, um país pequeno, com uma longa tradição gráfica, também deu ao mundo designers de craveira internacional, premiados, expostos e reconhecidos lá fora. Conhecê-los é uma questão de cultura e de justiça: o design português tem nomes que merecem estar no mapa.
Este artigo é uma introdução a alguns desses criadores. Não é uma lista exaustiva nem um ranking, é um ponto de partida para conhecer quem levou (e leva) o design português além-fronteiras. Como este é um projeto vivo, contamos com a comunidade para o enriquecer.
Há um marcador concreto e exigente de prestígio mundial no design: a AGI, Alliance Graphique Internationale, uma associação fundada em 1951 que reúne, por convite, alguns dos melhores designers gráficos do planeta. Ser membro da AGI é, no meio, uma das mais sérias confirmações de estatuto internacional. Vários portugueses pertencem (ou pertenceram) à AGI, e usaremos isso, ao lado de prémios e exposições, como sinal sólido de reconhecimento lá fora.
Sebastião Rodrigues, o pai do design moderno português
Não se pode falar de design português sem começar por Sebastião Rodrigues (1929-1997). Largamente considerado o pai do design gráfico moderno em Portugal, trabalhou num tempo em que a profissão quase não existia no país, e elevou-a sozinho a um nível de excelência.
Autodidata, criou capas de livros, revistas, cartazes, catálogos e identidade visual com uma sensibilidade rara, combinando rigor moderno com uma portugalidade culta (a influência da azulejaria, da tradição popular, da arte). O seu trabalho para a Fundação Calouste Gulbenkian e para inúmeras editoras tornou-se referência. Embora a sua carreira tenha sido sobretudo nacional, a sua obra é hoje estudada e exposta como património do design, e abriu o caminho a todos os que vieram depois.
João Machado, o mestre do cartaz
João Machado (n. 1942) é, provavelmente, o designer português mais premiado internacionalmente no domínio do cartaz. Formado em escultura, levou para o design uma sensibilidade plástica inconfundível: composições orgânicas, cor vibrante, formas recortadas que parecem dançar.
Os seus cartazes foram premiados e expostos em todo o mundo, em bienais e concursos internacionais de referência, e fazem parte de coleções e museus de design no estrangeiro. É membro da AGI, e o seu estúdio no Porto produziu identidades, selos e cartazes que são, eles próprios, escola. Quando se procura um exemplo de design português com projeção mundial, João Machado é dos primeiros nomes.
R2, o Porto no mapa global
O estúdio R2, fundado no Porto em 1995 por Lizá Defossez Ramalho e Artur Rebelo, levou o design português contemporâneo a um patamar de reconhecimento internacional notável. O seu trabalho, sobretudo para a cultura (museus, editoras, teatros, festivais), distingue-se por uma enorme inventividade tipográfica e conceptual.
A dupla é membro da AGI (entre os mais jovens a serem convidados quando entraram) e o seu trabalho foi premiado e exposto internacionalmente, em bienais e mostras de design por todo o mundo. O R2 provou que se pode fazer design de craveira mundial a partir do Porto, para clientes culturais, sem ceder à banalidade comercial.
Há um traço comum a muito do melhor design português reconhecido lá fora: nasce ao serviço da cultura, museus, fundações, editoras, teatros, festivais. É um terreno onde o designer tem liberdade para arriscar e onde o resultado se vê e se expõe internacionalmente. O design cultural tornou-se uma espécie de "montra" do talento gráfico português.
Eduardo Aires e a marca do Porto
Um dos casos mais celebrados do design português recente é a identidade visual da cidade do Porto, criada pelo estúdio White Studio, de Eduardo Aires (apresentada em 2014). O sistema, assente numa coleção de ícones inspirados nos azulejos que se combinam infinitamente, em azul e branco, tornou-se um caso de estudo mundial de city branding.
A marca do Porto foi distinguida com reconhecimento internacional, incluindo o prestigiado prémio alemão Red Dot (entre outras distinções de design), e é frequentemente citada como um dos melhores exemplos de identidade de cidade da Europa. Provou que uma identidade pública, em Portugal, podia competir e vencer ao mais alto nível internacional.
Henrique Cayatte e o design ao serviço da informação
Henrique Cayatte (n. 1957) é outro nome maior, com forte ligação ao design editorial e de informação. Foi figura central na conceção gráfica de jornais e publicações de referência em Portugal (notabilizou-se, por exemplo, no projeto gráfico do jornal Público), e desenvolveu trabalho em identidade, exposições e infografia.
Membro da AGI, Cayatte tem tido um papel também na formação e na afirmação institucional do design em Portugal, contribuindo para que a disciplina ganhasse o reconhecimento público que merece. O seu percurso mostra o design como ferramenta ao serviço da clareza e da cidadania.
Mário Feliciano e a arte rara de desenhar letras
Num registo mais especializado, Mário Feliciano (n. 1969) conquistou um lugar internacional num dos ofícios mais difíceis do design: o desenho de tipos de letra (type design). Fundador da Feliciano Type Foundry, desenhou famílias tipográficas usadas por publicações e marcas dentro e fora de Portugal, incluindo trabalho para imprensa internacional.
O desenho de tipos é uma elite dentro do design, exige domínio técnico, histórico e estético raríssimo (recorda a anatomia da letra e a herança de Aldus Manutius). Que um português figure entre os tipógrafos contemporâneos respeitados internacionalmente é motivo de orgulho para o design nacional.
Uma história ainda a escrever-se
Estes nomes são apenas uma porta de entrada. Há uma geração crescente de estúdios e designers portugueses a ganhar prémios internacionais (nos European Design Awards, no Red Dot, no D&AD, em bienais de cartaz), a entrar em coleções e a ser convidados para a AGI. O design português, em identidade, editorial, embalagem, tipografia e digital, está, hoje, mais internacional do que nunca.
O talento gráfico português nunca faltou; o que muda, nesta geração, é a projeção. Cada vez mais, faz-se design de classe mundial a partir de Lisboa, do Porto e de tantos outros sítios, e o mundo está a reparar.
Confusões comuns
“Portugal não tem tradição de design.” Tem uma longuíssima tradição gráfica (da Imprensa Nacional à azulejaria) e, no design moderno, uma linhagem que começa em Sebastião Rodrigues e chega a estúdios premiados internacionalmente. A tradição existe, falta, por vezes, conhecê-la.
“Reconhecimento internacional é só ganhar prémios.” Os prémios contam, mas há outros sinais sólidos: ser membro da AGI, ser exposto em museus e bienais lá fora, ter trabalho em coleções internacionais, ser convidado a ensinar e a falar em conferências. O prestígio mede-se de várias formas.
“Design português é só azulejo e tradição.” A tradição inspira (como na marca do Porto), mas o design português contemporâneo é diverso, conceptual e atual. Reduzi-lo a clichés é não o conhecer.
Em resumo
O design gráfico português tem nomes que se afirmaram muito para além das fronteiras: o pioneiro Sebastião Rodrigues, o mestre do cartaz João Machado, o estúdio R2 do Porto, a celebrada marca do Porto de Eduardo Aires, o designer de informação Henrique Cayatte e o tipógrafo Mário Feliciano, muitos deles membros da AGI e premiados internacionalmente.
São apenas alguns; a lista é mais longa e cresce a cada ano. Conhecê-los é perceber que o design português não é periferia, é um lugar onde se faz, há décadas, comunicação visual de classe mundial. E, sendo este um projeto vivo, fica o convite: se conheces (ou és) um criador português a brilhar lá fora que devêssemos incluir, diz-nos por email para bruno.moluras@ondagrafe.pt. Esta é uma história que se escreve a muitas mãos.