Quando metes um livro de bolso na mala, quando lês uma palavra em itálico, ou quando fazes uma pausa numa frase graças a uma vírgula ou a um ponto e vírgula, estás a usar invenções de um único homem do Renascimento. Chamava-se Aldus Manutius (em italiano, Aldo Manuzio), trabalhou em Veneza há mais de 500 anos, e é talvez o mais influente editor e tipógrafo de toda a história. Gutenberg inventou a impressão; Aldus inventou o livro tal como o conhecemos.

Esta é a história de um humanista que mudou para sempre a forma e o tamanho daquilo que lemos.

Veneza, capital mundial do livro

No final do século XV, meio século depois de Gutenberg, a impressão tinha-se espalhado pela Europa, e Veneza era a sua capital, uma cidade rica, comercial e cosmopolita, cheia de tipografias. Foi aí que Aldus Manutius, um erudito apaixonado pelos clássicos gregos e latinos, fundou por volta de 1494 a sua oficina, a Imprensa Aldina (Aldine Press).

O objetivo de Aldus não era só imprimir, era preservar e divulgar a sabedoria da Antiguidade, então em risco de se perder. Imprimiu edições monumentais dos clássicos gregos (Aristóteles, Sófocles, Platão) com um rigor filológico que ainda hoje impressiona. Mas a sua maior revolução não foi o que imprimiu, foi como.

A invenção do livro portátil

Antes de Aldus, os livros eram, em geral, objetos grandes e pesados, fólios para pousar numa estante ou numa mesa, ler de pé ou sentado a uma secretária. Eram caros, solenes, imóveis.

Aldus teve uma ideia simples e revolucionária: encolher o livro. Por volta de 1501, começou a publicar os clássicos em formato octavo, folhas dobradas de modo a criar livros pequenos, do tamanho de uma mão, que se podiam levar no bolso ou na bolsa e ler em qualquer lado. Eram os libelli portatiles, os “livrinhos portáteis”.

Foi o nascimento do livro de bolso. De repente, o livro deixava de ser um móvel para ser um companheiro: lia-se a passear, em viagem, na cama. Mudou não só o objeto, mas a própria relação das pessoas com a leitura, algo que ressoa até aos paperbacks modernos e ao e-book.

Porquê "octavo"

O tamanho de um livro define-se por quantas vezes se dobra a grande folha impressa: dobrada uma vez dá um fólio (grande); quatro páginas. Dobrada mais vezes, dá o quarto, depois o octavo (oito folhas, dezasseis páginas, pequeno). Aldus apostou no octavo para criar livros pequenos e baratos. É a mesma lógica de dobras e cadernos que ainda governa a paginação dos livros, ver o guia da dobra.

O itálico: letra inclinada para caber mais

Para estes livros pequenos, Aldus precisava de uma letra que ocupasse menos espaço sem perder legibilidade. Encomendou-a ao seu genial gravador de tipos, Francesco Griffo, que por volta de 1501 cortou o primeiro tipo itálico da história.

Inspirado na caligrafia cursiva dos humanistas (a letra inclinada e fluida que os eruditos usavam à mão), o itálico era mais estreito e compacto que a letra direita, permitindo meter mais texto em cada linha, perfeito para os livros de bolso. Estreou-se numa edição de Virgílio em 1501.

Hoje usamos o itálico para outra coisa, destacar uma palavra, um título, uma citação. Mas a sua origem foi puramente prática: poupar espaço. É um belo exemplo de como uma solução técnica se transforma, com os séculos, numa convenção de significado. (Sobre a diferença entre itálico verdadeiro e mera inclinação, ver anatomia de uma letra.)

E também a pontuação moderna

A influência de Aldus (e do seu neto, também Aldo) vai ainda mais longe, até aos sinais que separam as nossas frases. A oficina aldina popularizou e normalizou sinais de pontuação que hoje nos parecem óbvios:

  • A vírgula com a forma moderna.
  • O ponto e vírgula, cujo uso a tradição liga fortemente às edições aldinas.
  • Convenções de uso dos sinais que ajudaram a fixar a pontuação tal como a conhecemos.

Num tempo em que cada impressor pontuava à sua maneira, a casa aldina ajudou a dar ordem e ritmo à página, a ensinar o texto a respirar.

A tipografia romana que fez escola

Há ainda outra herança decisiva. O mesmo Francesco Griffo cortou, para Aldus, tipos romanos (a letra direita) de uma elegância e equilíbrio notáveis, em especial o usado num livrinho de Pietro Bembo (1496). Esse desenho influenciou séculos de tipografia: a fonte moderna Bembo é uma homenagem direta a ele, e mestres posteriores como Garamond beberam desta tradição. As serifadas clássicas que ainda hoje usamos em livros descendem, em boa parte, do que se cortou na oficina de Aldus.

"Festina lente", apressa-te devagar

A Imprensa Aldina tinha uma marca de impressor famosa: um golfinho enrolado numa âncora, com o lema festina lente ("apressa-te devagar"). O golfinho representa a rapidez; a âncora, a firmeza. Juntos, a ideia de fazer as coisas depressa mas bem, uma filosofia que qualquer gráfica, designer ou editor ainda hoje subscreveria. A marca aldina é um dos logótipos mais antigos e elegantes da história da edição.

Confusões comuns

“O itálico foi inventado para destacar palavras.” Não, foi inventado para poupar espaço nos livros de bolso de Aldus, por ser uma letra estreita. O uso para ênfase veio muito depois.

“Aldus inventou a impressão.” Não. A impressão de tipos móveis é de Gutenberg (c. 1450). Aldus, meio século depois, inventou o livro portátil, encomendou o itálico e moldou o livro moderno, a forma do que lemos, não a máquina.

“Aldus desenhou as suas próprias letras.” Foi o editor e visionário; as letras (itálico e romanos) foram cortadas por Francesco Griffo, o gravador. A grande tipografia nasce muitas vezes desta dupla: quem imagina e quem talha.

“Os livros de bolso são uma invenção do século XX.” O paperback moderno é do século XX, mas a ideia do livro pequeno e portátil é de Aldus Manutius, por volta de 1501. Ele teve a intuição 400 anos antes.

Em resumo

Aldus Manutius, em Veneza, por volta de 1500, fez pela forma do livro o que Gutenberg fizera pela sua produção: inventou o livro de bolso (o formato octavo portátil), encomendou a Francesco Griffo o primeiro tipo itálico (para poupar espaço), ajudou a fixar a pontuação moderna (vírgula, ponto e vírgula) e legou tipos romanos que influenciaram toda a tipografia posterior.

Poucas pessoas na história tocaram tanto a forma como lemos. Da próxima vez que leres uma palavra em itálico num livro pequeno que cabe na mão, lembra-te do humanista veneziano e do seu lema: festina lente, apressa-te devagar. Quinhentos anos depois, ainda lemos como Aldus nos ensinou.