Quando se fala dos primeiros livros impressos, o nome que vem à cabeça é o de Gutenberg e a sua Bíblia de Mainz, de 1455. Mas há um pormenor da história da impressão em Portugal que poucos conhecem: o primeiro livro impresso em território português não foi escrito em português. Foi escrito em hebraico, foi impresso em Faro, em 1487 — e o seu autor era um judeu algarvio chamado Samuel Gacon.

Esta é a história desse livro, da comunidade que o produziu, e do que ele revela sobre o Portugal do final do século XV.

Faro, 1487

Para entender o contexto, é preciso recuar quase 540 anos. No final do século XV, o Algarve era uma região fervilhante economicamente, com Faro como um dos principais centros urbanos. A cidade tinha uma comunidade judaica significativa, próspera, integrada na vida comercial e cultural da região.

A invenção da imprensa estava a espalhar-se rapidamente pela Europa. De Mainz tinha chegado a Itália por volta de 1465, depois a França, Espanha, Holanda. Em apenas três décadas, oficinas tipográficas tinham aparecido em quase todas as grandes cidades europeias.

Em Portugal ainda não havia. O reino, governado por D. João II, demorava a adotar a nova tecnologia. Foi então que, numa cidade pequena no extremo sul, um impressor judeu instalou prensas e fundiu tipos — e produziu o primeiro livro impresso em solo português.

Quem era Samuel Gacon

Pouco se sabe sobre Samuel Gacon, e o que se sabe vem indiretamente — através do próprio livro que imprimiu, e de referências cruzadas em arquivos posteriores. Era impressor profissional, com conhecimento técnico avançado em fundição de tipos e composição tipográfica. Tinha formação em hebraico, latim e outras línguas eruditas. Provavelmente fazia parte de uma rede internacional de impressores judeus que estavam, na altura, entre os melhores do mundo.

Esta rede explica como Gacon tinha acesso à tecnologia. As comunidades judaicas europeias, dispersas geograficamente mas conectadas por casamentos, comércio e correspondência erudita, formavam uma das infra-estruturas culturais mais sofisticadas do mundo medieval. A imprensa hebraica desenvolveu-se rapidamente e em paralelo com a cristã — em algumas cidades, com qualidade superior.

O Pentateuco

O livro que Gacon imprimiu chama-se Pentateuco — o nome dado aos cinco primeiros livros da Bíblia hebraica (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio), que correspondem à Torah, o texto sagrado central do judaísmo.

A obra foi impressa em hebraico, com tipografia hebraica fundida especificamente para o efeito. A qualidade tipográfica é considerada notável — o que sugere que Gacon tinha experiência prévia, possivelmente em oficinas de Itália ou Espanha.

A tiragem original deve ter sido pequena. Os incunábulos hebraicos da época raramente passavam das 200-300 cópias. Hoje restam pouquíssimos exemplares do Pentateuco de Faro, dispersos por bibliotecas europeias.

Sabias que

O Pentateuco de Faro é considerado o primeiro livro impresso em qualquer idioma em território português — anteceder em dois anos qualquer livro em latim ou português conhecido. É um marco histórico que merecia mais reconhecimento na cultura nacional.

Dois anos antes do primeiro livro em português

A próxima impressão conhecida em Portugal data de 1489 — o Tratado de Confissom, impresso em Chaves, por um impressor não identificado. É considerado o primeiro livro impresso em língua portuguesa (o de Faro foi em hebraico).

A localização não é casual. Faro e Chaves eram cidades de fronteira (uma marítima, outra terrestre) com forte presença de comunidades multiculturais e ligações ao exterior. As primeiras prensas portuguesas instalaram-se em portos e fronteiras, não no centro do reino — sinal de como a tecnologia chegou pelas margens da sociedade, não pelo poder central.

Lisboa, Porto e Coimbra só viriam a ter prensas mais tarde. A Imprensa Régia, que daria origem à atual Imprensa Nacional, só seria criada em 1768 — quase 300 anos depois do Pentateuco de Faro.

A expulsão de 1496 e o silenciamento da impressão judaica em Portugal

A história tem um epílogo trágico. Em 5 de Dezembro de 1496, o rei D. Manuel I assinou o decreto de expulsão dos judeus de Portugal, copiando — com cinco anos de atraso — o decreto análogo dos Reis Católicos em Espanha (1492).

A expulsão (rapidamente convertida em conversão forçada para grande parte da comunidade) destruiu uma das infra-estruturas culturais e económicas mais sofisticadas do reino. Centenas de famílias judaicas foram obrigadas a converter-se ao cristianismo (originando a comunidade dos cristãos-novos, que viria a ser perseguida pela Inquisição durante os três séculos seguintes). Outros milhares emigraram para o norte de África, Império Otomano, Países Baixos, Itália.

Com eles foram-se as oficinas tipográficas judaicas. Tipógrafos como Gacon e Eliezer Toledano (outro impressor judeu importante em Lisboa, ativo entre 1489 e 1495) ou desapareceram dos registos, ou tiveram de continuar a sua arte longe de Portugal. Toda uma tradição de impressão hebraica em território português foi extinta numa década.

Onde se pode ver hoje

Os exemplares conhecidos do Pentateuco de Faro estão dispersos. Sabe-se que existem cópias na Biblioteca Bodleian de Oxford e no Jewish Theological Seminary de Nova Iorque. Em Portugal, a Biblioteca Nacional de Portugal tem exemplares de outros incunábulos hebraicos da mesma época, mas o Pentateuco de Faro é uma raridade absoluta.

Para quem visita Faro, vale a pena ir à zona da antiga Cerca da Vila (a parte amuralhada da cidade) e à Igreja de São Pedro. Não há marcador ou museu dedicado a este episódio fundamental da história da impressão portuguesa — uma lacuna que merecia ser corrigida.

O que isto nos diz

A história do Pentateuco de Faro é, em primeiro lugar, uma história de abertura cultural num mundo em transformação. A imprensa chegou a Portugal não pelas vias oficiais, mas através de uma comunidade que combinava saber técnico, redes internacionais e ambição cultural.

Em segundo lugar, é uma história sobre o custo da intolerância. A comunidade que produziu o primeiro livro em território português foi, menos de uma década depois, expulsa ou forçada a converter-se. Portugal perdeu, num único decreto, parte significativa da sua infra-estrutura cultural, científica e económica — e demoraria séculos a recuperar.

Em terceiro lugar, é um lembrete de que a história que aprendemos na escola raramente é a história completa. Quantos portugueses sabem que o primeiro livro impresso em Portugal foi em hebraico? Que foi em Faro? Que precedeu em dois anos qualquer livro em português?

A história da imprensa portuguesa começou com Samuel Gacon, há 539 anos. É uma história que merece ser contada — e celebrada.