Há um conjunto de conceitos que separa quem “faz arte” de quem percebe de pré-impressão: sobreimpressão, vazado e trapping. Todos giram à volta da mesma realidade física, quando uma máquina imprime várias cores, as chapas nunca estão 100% alinhadas, e essa pequena imperfeição tem de ser gerida. Este guia explica tudo, e podes experimentar ao vivo no nosso Simulador de sobreimpressão vs vazado.

Vazado (knockout): o comportamento normal

Quando colocas um objeto de uma cor sobre um fundo de outra cor, o padrão é o vazado (knockout): a máquina “fura” o fundo no sítio do objeto, deixando o papel à vista, e imprime a cor do objeto por cima desse espaço vazio. As tintas não se misturam, cada uma fica na sua zona.

É o que faz sentido na maioria dos casos. Um texto laranja sobre um fundo azul deve sair laranja, não uma mistura de laranja com azul.

Sobreimpressão (overprint): imprimir por cima

A sobreimpressão (overprint) é o oposto: o objeto é impresso por cima do fundo, sem furar. As tintas somam-se (física subtrativa): em cada canal, a percentagem final é a soma das duas, até ao máximo de 100%.

Isto raramente é o que queres para cores, sobreimpor um amarelo sobre um ciano dá verde, não amarelo. Mas há um caso em que a sobreimpressão é a norma da indústria: o texto preto pequeno.

Porque é que o preto pequeno vai em overprint

Imagina texto preto fino sobre um fundo de cor. Em vazado, a máquina teria de furar o fundo exatamente na forma de cada letra, e ao mínimo desalinhamento das chapas aparece um filete branco à volta das letras. Pondo o preto em sobreimpressão, ele imprime-se simplesmente por cima do fundo: não há furo, não há filete branco possível. Por isso o preto de texto vai quase sempre em overprint.

O problema do registo (e os filetes brancos)

Numa máquina a 4 cores, cada cor é aplicada por uma chapa diferente. Os erros de registo, desalinhamentos de frações de milímetro entre chapas, são inevitáveis. Quando duas cores diferentes se tocam num vazado, esse desalinhamento revela o papel branco por baixo: o tal filete branco.

sem trapping, filete branco com trapping, sem falha o papel aparece na junta pequena sobreposição na junta
À esquerda, o magenta desalinhou-se do ciano e o papel branco aparece na junta. À direita, o trapping faz as cores sobreporem-se ligeiramente: mesmo com desalinhamento, não há branco a aparecer.

Trapping: a solução para os filetes brancos

O trapping (ou sobreposição de cores adjacentes) é a técnica que resolve isto: faz-se uma das cores invadir ligeiramente o território da outra na zona de contacto. Assim, se houver desalinhamento, há sempre cor a tapar a junta, nunca o papel.

Há dois movimentos básicos:

  • Spread (espalhar): o objeto mais claro cresce um pouco para dentro do mais escuro.
  • Choke (encolher): o fundo mais escuro avança um pouco sobre o objeto mais claro.

A regra geral é que a cor mais clara cede à mais escura, porque o olho nota menos a alteração na cor clara. Os valores típicos de trapping são minúsculos, 0,05 a 0,15 mm, e na esmagadora maioria dos casos é o RIP da gráfica que os aplica automaticamente. Raramente precisas de fazer trapping à mão.

O erro crítico: texto branco em overprint

Há uma combinação que dá sempre asneira: texto branco com sobreimpressão ativada.

Na máquina, o branco é a ausência de tinta, é a cor do papel. Se mandares um objeto branco em overprint, estás a dizer “imprime nada por cima do fundo”. Resultado: a máquina imprime o fundo por cima e o texto branco desaparece completamente. É um clássico que arruína tiragens.

Experimenta no simulador: põe o texto a branco, ativa o overprint, e vê-o sumir. O branco deve estar sempre em vazado.

E os grandes fundos pretos?

O overprint do preto é ótimo para texto, mas em grandes áreas pretas pode deixar o fundo transparecer (a tinta preta não é 100% opaca). Para esses casos, usa preto rico em vazado, vê preto rico vs preto puro. O preto rico (ex.: C40 M30 Y0 K100) é mais denso e cobre melhor.

Confusões comuns

“Vou pôr tudo em overprint para evitar filetes brancos.” Não. O overprint só é seguro para o preto (e cores escuras sobre claras). Em cores normais, mistura tintas e dá cores erradas. Para o resto, a solução é o trapping, não o overprint geral.

“Tenho de fazer o trapping no meu design.” Quase nunca. As gráficas profissionais aplicam trapping no RIP. Fazer trapping manual sem saber pode até piorar. Pergunta à tua gráfica como gerem isto.

“O branco em overprint vê-se no ecrã, logo imprime.” O ecrã é luz, a impressão é tinta. O ecrã mostra o branco; a máquina não tem “tinta branca” no CMYK, imprime o fundo por cima. Confia na regra, não no ecrã.

Em resumo

Vazado = a cor fura o fundo (padrão). Overprint = a cor imprime por cima e soma-se (usar para preto de texto). Trapping = pequena sobreposição que tapa os filetes brancos do mau registo. E a regra que nunca podes esquecer: branco nunca em overprint. Brinca com os cenários no simulador até a lógica ficar intuitiva.