As artes gráficas estão cheias de histórias escondidas dentro de palavras e objetos que usamos sem pensar. Porque dizemos “caixa alta”? De onde vem o ”&”? Porque é que o preto do CMYK se chama “K”? Reunimos doze curiosidades, todas verdadeiras, todas verificáveis, perfeitas para guardar na manga e atirar para a mesa na próxima aula ou conversa de café.

Vai contando os que já conhecias. Se acertares em mais de seis, mereces um diploma honorário de artes gráficas.

1. O “K” do CMYK não é de black

Toda a gente assume que o K de CMYK significa blacK, a última letra, já que o B seria confundido com blue. Engano comum. O K vem de Key (chave). A chapa preta era a chapa-chave (key plate), aquela que carregava o detalhe e o contorno e à qual as outras três cores se alinhavam. As cores Keyed-se ao preto. Se quiseres perceber a fundo, lê o CMYK ou RGB, mas já podes corrigir meio mundo.

2. “Cliché” nasceu de um som

Hoje “cliché” é uma ideia gasta de tanto se repetir. A palavra é francesa e tipográfica. No fabrico de chapas de impressão (a estereotipia), mergulhava-se uma matriz em metal fundido para criar uma placa sólida e repetível. Diz a tradição que “cliché” imita o som dessa matriz a bater no metal. Uma chapa que servia para imprimir o mesmo, vezes sem conta, daí o sentido de “algo repetido até à exaustão”.

3. “Estereótipo” também é uma chapa de impressão

Na mesma família: estereótipo vem do grego stereos (sólido) + typos (tipo). Era a tal chapa sólida que reproduzia uma página inteira para imprimir grandes tiragens sem voltar a compor os tipos um a um. Quando dizemos que alguém “é um estereótipo”, estamos literalmente a chamar-lhe uma chapa de impressão fixa e repetida. A linguagem do dia a dia está cheia de tipografia fossilizada.

Bónus linguístico

"Entrelinha" (o espaço entre linhas de texto, em inglês leading) vem de quando os tipógrafos inseriam tiras finas de chumbo (lead, em inglês) entre as linhas para as afastar. O espaçamento media-se em pedaços de metal. Hoje arrastas um valor no ecrã, mas o nome ficou agarrado ao chumbo.

4. Porque dizemos “caixa alta” e “caixa baixa”

Letras maiúsculas chamam-se “caixa alta” e minúsculas “caixa baixa” (em inglês, uppercase e lowercase) por uma razão deliciosamente literal. Os tipógrafos guardavam os tipos de metal em caixas de madeira inclinadas. As maiúsculas, usadas menos vezes, ficavam na caixa de cima (a alta); as minúsculas, constantes, na caixa de baixo, mais à mão. A posição física da gaveta deu o nome ao tamanho da letra. Quinhentos anos depois, ainda o dizemos.

5. O ”&” é duas letras coladas

O ampersand & não é um símbolo qualquer: é uma ligadura, a fusão desenhada das letras E e T da palavra latina et (“e”). Olha com atenção para alguns ”&” mais clássicos e ainda vês o “e” e o “t” abraçados. Durante séculos o & foi tratado quase como a 27.ª letra do alfabeto. O nome “ampersand” é uma deformação de “and per se and”, mas a alma do símbolo é puro desenho de letra.

6. A arroba ”@” é mais velha do que o email

O símbolo @, que hoje vive nos emails e nas redes, é antiquíssimo no comércio. Em Portugal e Espanha, a arroba era uma unidade de peso (cerca de 15 kg), e o símbolo usava-se em contabilidade muito antes dos computadores. Quando Ray Tomlinson precisou, em 1971, de um separador para o correio eletrónico, escolheu o @ precisamente porque andava esquecido no teclado e não se confundia com nomes. Reciclou um símbolo medieval para a era digital.

7. O primeiro produto com código de barras foi… pastilha elástica

A 26 de junho de 1974, num supermercado Marsh em Troy, no Ohio, passou pela caixa o primeiríssimo produto com código de barras alguma vez lido por um scanner: uma embalagem de pastilhas Wrigley’s Juicy Fruit. Não foi por acaso simbólico, foi só o primeiro item que o operador pegou. Essa embalagem está hoje num museu (a Smithsonian). Cada vez que ouves o “bip” na caixa, é descendente direto daquela pastilha.

Para impressionar o professor

O código de barras impõe regras gráficas sérias: precisa de contraste (barras escuras sobre fundo claro, vermelho sobre branco não lê, porque o scanner "vê" o vermelho como claro), de uma zona de silêncio (margem branca à volta) e de dimensões mínimas. Um designer que aperta demais o código para "ficar bonito" pode pôr um produto inteiro a falhar na caixa do supermercado.

8. Portugal imprimiu o seu primeiro livro em hebraico

O primeiro livro impresso em território português não foi em português, foi em hebraico. O Pentateuco de Faro, de 1487, saído da oficina de Samuel Gacon, é o primeiro livro impresso conhecido em Portugal, mais de 30 anos depois da Bíblia de Gutenberg. A história completa está no Pentateuco de Faro, e é um daqueles factos que arruma qualquer discussão sobre o pioneirismo gráfico em Portugal.

9. Os tipos móveis nasceram na China, 400 anos antes de Gutenberg

Gutenberg ganhou a fama, mas não foi o primeiro. Por volta de 1040, o chinês Bi Sheng já criava tipos móveis em argila cozida. A escrita chinesa, com milhares de caracteres, dificultou a adoção em massa, e foi o alfabeto, com poucas letras, que tornou a invenção de Gutenberg tão explosiva na Europa. Mas a ideia veio do Oriente, séculos antes. Conta-se tudo no Bi Sheng.

10. O homem do milénio… faliu antes de lucrar

Johannes Gutenberg foi eleito por várias listas a figura mais influente do segundo milénio. Ironia das ironias: perdeu a sua própria gráfica em tribunal antes de ver um cêntimo de lucro. O seu financiador, Johann Fust, processou-o e ficou com a oficina e com a famosa Bíblia de 42 linhas. O inventor da impressão moderna morreu sem riqueza nem reconhecimento em vida. A história (que é melhor que qualquer telenovela) está no Gutenberg.

11. Uma técnica gráfica mudou de nome por votação

A flexografia, o processo que imprime quase todas as embalagens de plástico, chamava-se até 1952 “impressão à anilina”. Como “anilina” soava a tóxico (mau, ainda por cima em embalagem alimentar), a indústria americana fez literalmente uma votação para escolher um nome novo. Ganhou “flexografia”. Poucos processos industriais podem dizer que foram rebatizados por sufrágio. A história está no flexografia.

12. A Helvetica era “suíça” no nome, à conta de marketing

A fonte mais usada do mundo, a Helvetica, nasceu em 1957 na Suíça com um nome bem menos sonoro: Neue Haas Grotesk. Para a vender internacionalmente, mudaram-no para Helvetica, do latim Helvetia, “Suíça”. Vendia-se melhor a ideia de precisão e neutralidade suíças do que “Haas Grotesk”. A letra que vês em sinalética, metros e logótipos por todo o lado deve metade do seu sucesso a uma jogada de branding tipográfico. Mais sobre famílias de letra em serif, sans-serif e tudo o resto.

Curiosidade extra (a 13.ª, para gulosos)

Os livros têm quase sempre um número de páginas múltiplo de 8 ou 16. Não é capricho: as páginas imprimem-se em grandes folhas que depois se dobram em cadernos de 8, 16 ou 32 páginas. Por isso, às vezes, sobram páginas em branco no fim de um livro, são o "arredondamento" do caderno. Vê como funciona no guia da dobra.

A graça de saber isto

Nenhuma destas curiosidades te vai mudar a vida, mas todas mostram a mesma coisa: a impressão é tão antiga e tão entranhada na nossa cultura que deixou marcas na própria linguagem. Falamos em estereótipos, clichés, caixa alta e entrelinhas sem saber que estamos a citar oficinas de chumbo de há séculos.

E é talvez essa a melhor razão para estudar artes gráficas: por trás de cada saco, cada livro, cada rótulo e cada “bip” na caixa do supermercado, há 600 anos de engenho humano, e umas quantas histórias dignas de se contar. Agora já tens doze (e meia) para começar.