Pergunta a 100 pessoas quem inventou os tipos móveis e 99 vão responder Johannes Gutenberg. É a resposta que aprendemos na escola, está em todos os manuais ocidentais, e é parcialmente verdadeira: Gutenberg foi pioneiro na Europa, em meados do século XV.
Mas há uma verdade incómoda que poucos conhecem: 400 anos antes de Gutenberg, na China, um homem chamado Bi Sheng já tinha inventado os tipos móveis. Era oleiro. Trabalhava com barro. E mudou silenciosamente a história da humanidade — sem nunca receber o crédito que merece no Ocidente.
China, ano 1041
Para entender Bi Sheng, é preciso recuar a um momento muito específico: a dinastia Song do Norte, na China imperial, por volta de 1041. Era uma das épocas mais cultas e tecnologicamente avançadas da história mundial. A China inventou ou aperfeiçoou nesta época a bússola, a pólvora, o papel-moeda, o relógio mecânico, e — naturalmente — a impressão.
A impressão como atividade já existia há séculos na China. Desde o século VII que se usavam blocos de madeira gravados para imprimir textos: gravava-se uma página inteira num bloco, passava-se tinta, e premia-se contra o papel. Funcionava, mas tinha um problema fundamental: cada página exigia o seu próprio bloco, gravado à mão por um artesão. Um livro de 300 páginas precisava de 300 blocos.
É aqui que entra Bi Sheng.
A genialidade de uma ideia simples
Bi Sheng (毕昇 em chinês tradicional) era um homem comum — não era um sábio, nem um nobre, nem um funcionário imperial. Era oleiro, fabricava cerâmica. Mas teve uma ideia que ninguém antes dele tinha tido:
E se, em vez de gravar páginas inteiras em blocos de madeira, cada caractere fosse gravado individualmente num pequeno tipo separado? Os tipos podiam ser combinados para formar qualquer página, e depois separados e reutilizados para a página seguinte.
Era a ideia central dos tipos móveis. Quatro séculos antes de Gutenberg.
Como funcionava o sistema de Bi Sheng
A descrição técnica do sistema de Bi Sheng chegou-nos através de um livro chamado “Sonhos da Lagoa de Pincéis” (梦溪笔谈), escrito pelo erudito Shen Kuo por volta de 1088 — cerca de 50 anos depois das experiências de Bi Sheng. É a única fonte primária que temos.
O processo era engenhoso:
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Modelar os tipos. Bi Sheng modelava cada caractere em barro húmido, num pequeno bloco retangular, como um pequeno selo individual.
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Cozer no forno. Os tipos em barro eram cozidos a alta temperatura, ficando duros como cerâmica.
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Preparar a forma. Numa placa de ferro, Bi Sheng espalhava uma mistura de cera, resina e cinzas. Esta mistura, quando aquecida, ficava macia; quando arrefecida, endurecia.
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Compor a página. Os tipos eram arranjados sobre a placa para formar a página desejada. Aquecia-se a placa por baixo para a cera amolecer, premia-se uma tábua plana sobre os tipos para os nivelar, e arrefecia-se para fixar.
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Imprimir. Aplicava-se tinta nos tipos e premia-se o papel — exatamente como nos blocos de madeira tradicionais.
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Reutilizar. Para a página seguinte, aquecia-se de novo a placa, removiam-se os tipos, e recombinavam-se em nova ordem.
Era trabalhoso, mas teoricamente revolucionário.
Porque é que não funcionou em escala
Aqui está a parte fascinante e algo trágica desta história. A invenção de Bi Sheng era genial em teoria, mas teve adoção limitada. As razões são várias:
Os tipos em barro eram frágeis. Quebravam com facilidade durante o uso e o transporte. A durabilidade era muito inferior à dos blocos de madeira tradicionais.
A absorção desigual de tinta. A cerâmica não absorve tinta de forma uniforme — algumas zonas ficavam mais saturadas que outras, comprometendo a qualidade da impressão.
Mas o fator decisivo foi o alfabeto chinês.
O chinês não tem um alfabeto fonético com 26 letras. Tem milhares de caracteres — cerca de 5.000 caracteres comuns, e dezenas de milhares no total. Para imprimir um texto típico, precisar-se-iam de dezenas de milhares de tipos individuais, cada um modelado e cozido manualmente.
O custo de produção e armazenamento desta quantidade de tipos era proibitivo. Os blocos de madeira tradicionais, apesar de menos versáteis, eram economicamente mais viáveis para a maioria dos editores chineses. A invenção de Bi Sheng ficou conhecida, mas raramente usada.
Os coreanos foram mais longe
A ideia de Bi Sheng, no entanto, não morreu. Espalhou-se pela Ásia oriental e foi sendo refinada.
No século XIII, na Coreia (então o reino de Goryeo), os tipos móveis foram melhorados radicalmente: passaram a ser fabricados em metal fundido (bronze), em vez de barro. Os tipos metálicos eram muito mais duráveis, absorviam tinta de forma uniforme, e podiam ser produzidos em larga escala através de moldagem.
O livro Jikji, impresso em 1377 na Coreia, é considerado o livro mais antigo do mundo impresso com tipos móveis metálicos — 78 anos antes da Bíblia de Gutenberg. Está hoje na Biblioteca Nacional de França e é reconhecido pela UNESCO como Memória do Mundo.
Mas tal como os tipos de barro de Bi Sheng, os tipos metálicos coreanos também sofreram com o problema do alfabeto. O coreano usa o hangul (alfabeto fonético com cerca de 24 letras) desde 1443, mas no século XIV ainda usavam carateres chineses, com os mesmos limites práticos. O sistema funcionou, mas teve adoção limitada.
Porque é que a Europa fez a revolução, e não a Ásia
Esta é a pergunta fundamental — e a resposta tem mais a ver com linguística e cultura do que com tecnologia.
Quando Gutenberg desenvolveu os seus tipos móveis em Mainz, por volta de 1455, herdou um conjunto de vantagens que nem Bi Sheng nem os coreanos tinham:
Um alfabeto curto. O alemão (e todas as línguas europeias) usa um alfabeto de 26 letras (ou 30, considerando acentos). Em vez de modelar 5.000 carateres, Gutenberg precisava apenas de algumas centenas de tipos (letras maiúsculas e minúsculas, números, pontuação, em várias cópias para repetições). A escala era completamente diferente.
Liga metálica adequada. Gutenberg desenvolveu uma liga específica de chumbo, estanho e antimónio que era fácil de fundir, durável, e tinha o ponto de fusão certo. Esta liga revolucionou a fundição de tipos.
Tinta à base de óleo. As tintas asiáticas eram à base de água — funcionavam bem em blocos de madeira mas mal em tipos metálicos. Gutenberg adaptou tintas oleosas dos pintores flamengos, que aderiam perfeitamente ao metal.
Prensa adaptada. Gutenberg adaptou prensas de uvas e de papel já existentes na Europa, conseguindo aplicar pressão uniforme — algo que os asiáticos faziam à mão, com escova.
Mercado pronto. A Europa do século XV tinha uma classe média urbana em crescimento, universidades, mercadores, igreja a precisar de Bíblias — uma procura massiva por livros baratos.
A combinação destes fatores fez de Gutenberg, e não de Bi Sheng, o homem cuja invenção mudou o mundo. Não foi uma questão de inteligência — foi uma questão de contexto.
A injustiça histórica
A pergunta natural é: Bi Sheng deveria ser tão famoso como Gutenberg?
A resposta depende do que entendemos por “inventar”. Se inventar é ter a ideia primeiro, Bi Sheng inventou os tipos móveis 400 anos antes de Gutenberg — sem dúvida. Se inventar é levar uma tecnologia até ao ponto de mudar a sociedade, foi Gutenberg quem o conseguiu, não Bi Sheng.
Mas a história ocidental tendeu a esquecer Bi Sheng quase por completo. Em parte por desconhecimento, em parte por etnocentrismo, em parte porque a sua invenção realmente nunca alcançou a escala necessária para impactar o mundo da mesma forma.
Hoje, na China, há museus dedicados a Bi Sheng. Na sua terra natal de Yingshan (atual província de Hubei), há uma estátua dele. O seu nome aparece nos manuais escolares chineses ao lado de outros grandes inventores. No Ocidente, é raríssimo ouvir falar nele.
Lição histórica: invenção vs adoção em massa
A história de Bi Sheng e Gutenberg ensina algo importante sobre como as tecnologias mudam o mundo: inventar não é o mesmo que mudar.
Há centenas de exemplos de invenções que apareceram décadas ou séculos antes do seu tempo, mas que não conseguiram penetrar na sociedade — por falta de contexto técnico, económico, cultural, ou linguístico. Inversamente, inventores “secundários” são por vezes os que conseguem trazer uma ideia ao mundo, no momento certo, com as condições certas.
Bi Sheng teve a ideia. Gutenberg teve a oportunidade.
Ambos merecem ser lembrados — mas a memória coletiva ocidental escolheu apenas um. Vale a pena, de vez em quando, repor a complexidade da história. A imprensa não nasceu em Mainz em 1455. Nasceu em fragmentos, em vários cantos do mundo, ao longo de séculos — e Bi Sheng, o oleiro chinês, foi um dos primeiros a vislumbrar para onde poderia ir.