Eis um daqueles segredos da impressão que quase ninguém conhece, mas que decide se um trabalho fica bom ou ridículo: o papel tem uma “direção”. Cada folha tem um sentido em que dobra suavemente e rasga a direito, e outro em que dobra a rachar e rasga torto. Esse sentido chama-se sentido da fibra (em inglês, grain), e ignorá-lo é a causa de livros que não abrem, capas que racham na dobra e folhetos com um vinco feio.
Este artigo explica o que é o sentido da fibra, porque importa tanto, e como descobri-lo. É um conhecimento de profissional, e a marca de quem percebe mesmo de papel.
Porque é que o papel tem “direção”
O papel é feito de fibras de celulose (ver a história do papel). Quando é fabricado na máquina, a pasta corre sobre uma tela em movimento a grande velocidade, e as fibras alinham-se predominantemente no sentido em que a máquina anda, como troncos a flutuar todos na mesma direção num rio.
Esse alinhamento dá ao papel uma direção dominante das fibras:
- Sentido da máquina (machine direction): o sentido em que as fibras se alinham (o sentido em que o papel correu na máquina).
- Sentido transversal (cross direction): perpendicular ao anterior, atravessando as fibras.
O papel comporta-se de forma diferente nestes dois sentidos, e é isso que muda tudo.
Pensa nas fibras como palhinhas todas deitadas na mesma direção. Dobrar ou rasgar ao longo das palhinhas (a favor da fibra) é fácil e limpo, separam-se sem resistência. Dobrar ou rasgar atravessando as palhinhas (contra a fibra) obriga a partir cada uma, daí a resistência, o vinco que racha e o rasgão torto. O papel é mais rígido ao longo da fibra e dobra melhor a favor dela. Tudo o resto decorre disto.
Fibra longa e fibra curta
Quando se corta uma folha, o sentido da fibra fica em relação às suas dimensões, e classifica-se assim:
- Fibra longa (grain long): a fibra corre paralela ao lado maior da folha.
- Fibra curta (grain short): a fibra corre paralela ao lado menor da folha.
Por isso, ao encomendar papel, a direção da fibra faz parte da especificação, muitas vezes indicada sublinhando a medida que é paralela à fibra (ex.: 70×100 indica fibra no sentido dos 100 cm). Não é um detalhe: é informação técnica essencial para quem vai dobrar ou encadernar.
Porque importa: dobrar
A consequência mais visível está nas dobras. Uma dobra a favor da fibra (paralela à direção das fibras) é lisa, limpa e firme. Uma dobra contra a fibra (atravessando-a) tende a ficar áspera, a rachar e a “abrir”, sobretudo em papéis gramados e revestidos (couché), onde o revestimento estala e mostra o branco do papel por baixo.
É por isso que, num folheto ou numa capa, as dobras devem, sempre que possível, ser paralelas à fibra. Quando não é possível, vinca-se antes de dobrar para minimizar o estrago, mas a fibra certa é sempre melhor que o melhor vinco.
Porque importa (ainda mais): encadernar
No mundo do livro, o sentido da fibra é regra de ouro: a fibra deve correr paralela à lombada (à vertical do livro). Quando é assim:
- O livro abre bem e as páginas ficam planas.
- As páginas viram-se com naturalidade e “caem” no sítio.
- A lombada não enruga nem ondula.
Quando a fibra está errada (perpendicular à lombada), o livro fica rígido, não abre bem, as páginas resistem a virar e podem ondular com a humidade. Um livro com a fibra errada é desconfortável de ler, e qualquer encadernador que se preze não comete esse erro. É uma das marcas invisíveis de um livro bem feito.
Há outra consequência: o papel expande e encolhe com a humidade sobretudo no sentido transversal à fibra. Por isso, quando o papel absorve ou perde humidade, tende a enrolar (curvar) num sentido específico. É também por isto que o papel deve "aclimatizar-se" ao ambiente da gráfica antes de imprimir, e por que razão impressões a grande cobertura de tinta de um só lado podem encurvar a folha. A fibra explica metade dos "mistérios" do comportamento do papel.
Como descobrir o sentido da fibra
Não precisas de instrumentos, há truques simples e fiáveis:
- Teste da dobra: dobra ligeiramente o papel nos dois sentidos. O sentido que dobra com menos resistência e mais liso é a favor da fibra. O que resiste e tende a rachar é contra.
- Teste do rasgão: rasga o papel nos dois sentidos. A favor da fibra, o rasgão sai direito e limpo; contra, sai torto e irregular.
- Teste da tira (humidade): corta duas tiras estreitas, uma de cada sentido, e humedece-as, a que enrola mais revela o sentido transversal à fibra. Ou pousa uma tira na unha: a que verga mais facilmente é a transversal.
Com um destes testes, em segundos sabes o sentido da fibra de qualquer folha.
Confusões comuns
“Papel é igual em todos os sentidos.” Não. Tem uma direção de fibra que o faz dobrar, rasgar e vergar de forma diferente em cada sentido. Ignorá-la dá dobras rachadas e livros que não abrem.
“A fibra só importa para livros.” Importa em tudo o que dobra ou encadernar: folhetos, capas, embalagem, livros. E afeta também a rigidez e o enrolamento de qualquer impresso.
“Se a dobra rachar, é só usar papel melhor.” Muitas vezes o problema não é a qualidade do papel, é a fibra na direção errada (ou a falta de vinco). Papel caríssimo dobrado contra a fibra racha na mesma.
“O sentido da fibra escolhe-se na impressão.” Escolhe-se ao comprar/cortar o papel, pela forma como a folha é cortada da bobine. Por isso é parte da especificação do trabalho, decidida antes de imprimir.
Em resumo
Cada folha de papel tem uma direção de fibra, herdada do fabrico, que a faz dobrar e rasgar melhor num sentido (a favor) do que no outro (contra). Classifica-se em fibra longa ou fibra curta conforme corre paralela ao lado maior ou menor da folha, e faz parte da especificação de qualquer trabalho que dobre ou encaderne.
A consequência prática é enorme: dobras paralelas à fibra saem lisas (contra a fibra, racham); e os livros têm de ter a fibra paralela à lombada para abrirem bem e virarem páginas com naturalidade. Descobre-la é fácil (dobra, rasga ou humedece e vê). É um daqueles conhecimentos que não se veem no resultado final, mas que se sentem em cada página que vira sem resistência e em cada dobra que não racha. A marca silenciosa de quem percebe mesmo de papel.