Tens papel à mão neste momento, quase de certeza, e não lhe dás qualquer importância. É barato, está em todo o lado, deita-se fora sem pensar. Mas durante a maior parte da história humana, uma superfície para escrever foi um luxo raro e caríssimo, e a invenção que mudou isso é uma das mais influentes de sempre. Sem papel barato não há livros para todos, não há jornais, não há a difusão do conhecimento que fez o mundo moderno.

Esta é a viagem do papel: da corte imperial chinesa a uma máquina que cospe quilómetros de folha por hora. É a história do próprio suporte sobre o qual tudo o resto, tipografia, impressão, embalagem, assenta.

Antes do papel: pedra, argila, papiro e pele

Por milénios, escreveu-se onde se podia. Em tábuas de argila (Mesopotâmia), em pedra, em tiras de bambu e seda (China antiga). Duas soluções dominaram o mundo antigo:

  • Papiro: feito no Egito a partir da planta do mesmo nome, cujas tiras se prensavam em folhas. Deu o nome ao “papel” em muitas línguas (paper, papel), mas não é papel, não há trituração nem refeitura da fibra. Era frágil e dependia do clima seco egípcio.
  • Pergaminho e velino: pele de animal (ovelha, cabra, vitela) tratada e esticada. Resistente e durável, mas brutalmente caro. Um único livro grande podia exigir o couro de um rebanho inteiro. É por isso que, na Idade Média, os livros eram tesouros acorrentados nas bibliotecas.

Faltava algo barato, abundante e fácil de produzir. Esse algo nasceu na China.

Cai Lun e o ano 105

A tradição atribui a invenção do papel a Cai Lun (蔡倫), um funcionário da corte Han, por volta do ano 105 d.C. Provavelmente já existiam formas rudimentares de papel antes dele, mas foi Cai Lun quem sistematizou e melhorou o processo, registando-o e apresentando-o ao imperador, e por isso ficou na história como o seu “pai”.

O génio do método estava nos materiais baratos e no princípio físico: triturava-se casca de árvore (amoreira), cânhamo, trapos de tecido e redes de pesca numa polpa aquosa. Mergulhava-se um molde de malha fina nessa polpa; ao levantá-lo, a água escorria e as fibras entrelaçavam-se numa folha húmida, que depois se prensava e secava.

O princípio que não mudou em 2000 anos

Por mais sofisticada que seja uma fábrica de papel moderna, faz exatamente o mesmo que Cai Lun: suspende fibras de celulose em água, escorre essa suspensão sobre uma malha para as fibras se entrelaçarem, e seca a folha. Mudou a escala (de uma folha de cada vez para rolos infinitos), mudou a matéria-prima (da casca de amoreira à madeira), mas o princípio físico, fibras entrelaçadas a partir de uma suspensão aquosa, é o mesmo desde o ano 105.

A viagem para Ocidente: a Rota da Seda e uma batalha

A China guardou o segredo do papel durante séculos. Espalhou-se primeiro para vizinhos: a Coreia e, por volta de 610, o Japão (levado, diz-se, por um monge budista), onde nasceu uma tradição de papéis artesanais (washi) admirável.

A passagem para o mundo islâmico tem uma origem dramática: a Batalha de Talas, em 751, entre o califado Abássida e a China Tang. Segundo a tradição, entre os prisioneiros chineses estavam fabricantes de papel, cujo conhecimento se difundiu pelo mundo islâmico. Em pouco tempo havia moinhos de papel em Samarcanda e Bagdade, e o papel tornou-se o suporte da extraordinária cultura escrita islâmica medieval.

Do mundo islâmico, o papel entrou na Europa pela Península Ibérica. No al-Ândalus, a cidade de Xàtiva (Játiva), perto de Valência, tinha um moinho de papel já no século XII, dos primeiros da Europa. Daí espalhou-se para Itália, onde Fabriano (século XIII) revolucionou o fabrico com inovações decisivas: a cola de gelatina (que permitia escrever com tinta sem borrar) e a marca de água (filigrana), criada por fios cosidos no molde, ainda hoje um sinal de autenticidade e qualidade.

Cinco séculos a fazer papel à mão

Da chegada à Europa até ao século XIX, o papel fez-se folha a folha, à mão, em moinhos movidos a água que trituravam trapos de linho e algodão (o papel de trapo, de excelente qualidade e durabilidade, muitos documentos de há 500 anos estão melhor conservados que livros do século XX).

Quando Gutenberg lançou a imprensa, por volta de 1450 (ver Gutenberg), foi o papel barato que tornou a revolução possível: imprimir em pergaminho teria sido proibitivo. Imprensa e papel cresceram de mãos dadas, uma criava a procura, o outro a tornava viável.

Mas havia um limite: os trapos. A produção de papel dependia de roupa velha, e a procura crescente esgotava o abastecimento. Era preciso uma matéria-prima abundante.

A máquina que mudou tudo

Duas revoluções, perto uma da outra, libertaram o papel:

1. A máquina contínua (1799-1804). O francês Nicolas-Louis Robert patenteou, em 1799, uma máquina que fazia papel em folha contínua sobre uma tela móvel, em vez de folha a folha. A ideia foi desenvolvida em Inglaterra e financiada pelos irmãos Fourdrinier, e a máquina Fourdrinier (1804) tornou-se a base de toda a produção industrial de papel até hoje. Uma máquina destas faz, num minuto, o que um artesão fazia em semanas.

2. A polpa de madeira (meados do século XIX). Para alimentar essas máquinas famintas, substituiu-se o trapo pela madeira: tritura-se a madeira em polpa, mecânica ou quimicamente, extraindo a celulose. De repente, a matéria-prima era praticamente ilimitada, havia florestas. O papel despencou de preço.

O lado escuro da madeira: o papel que se autodestrói

A polpa de madeira trouxe um problema. A madeira contém lenhina, e os processos baratos (e a colagem ácida usada na época) deixavam o papel ácido, que amarelece e se desfaz com o tempo. É por isso que jornais antigos ficam castanhos e quebradiços, e que muitos livros do século XX estão a degradar-se. A solução moderna é o papel sem ácido (acid-free), com lenhina removida e colagem neutra, usado em livros de arquivo e edições de qualidade. Ironia: o papel de trapo de há 500 anos dura mais que o papel industrial de há 80.

O papel barato muda o mundo

As consequências foram colossais. Papel abundante e barato deu-nos:

  • Jornais para as massas e a imprensa diária.
  • Livros acessíveis e a alfabetização em larga escala.
  • Embalagem de papel e cartão (ver caixas de cartão), que transformou o comércio.
  • A burocracia, a contabilidade, o correio, toda a civilização do papel.

Durante o século XX, o consumo de papel tornou-se um indicador de desenvolvimento. E, apesar das previsões do “escritório sem papel”, o digital não o matou, transformou-o: hoje, boa parte do papel é embalagem e higiene, mais do que escrita.

E em Portugal?

Portugal teve a sua tradição papeleira em moinhos movidos a água, sobretudo nas regiões de cursos de água constantes, a zona da Lousã e da serra ficou conhecida pelos seus engenhos de papel. A indústria moderna de pasta e papel, ligada ao eucalipto, viria a tornar-se um dos pilares da economia e da exportação portuguesas no século XX e XXI.

O presente: reciclar e voltar à fibra

A história do papel fecha um ciclo na reciclagem. A fibra de celulose pode reciclar-se 5 a 7 vezes antes de encurtar demasiado, e o papel é dos materiais mais reciclados do mundo. As tendências atuais (fibra certificada FSC/PEFC, redução de gramagem, mono-material para facilitar reciclagem) tentam casar a abundância com a sustentabilidade. Para escolher bem o papel hoje, vê tipos de papel e gramagem explicada.

Em resumo

O papel nasceu na China, com Cai Lun, por volta do ano 105, de um princípio que nunca mudou: fibras de celulose entrelaçadas a partir de uma suspensão em água. Viajou pela Rota da Seda e pelo mundo islâmico (com escala numa batalha em 751), entrou na Europa pela Península Ibérica, e fez-se à mão com trapos durante cinco séculos, sustentando a revolução de Gutenberg.

Foi a máquina Fourdrinier (1804) e a polpa de madeira que o tornaram tão barato que mudou a leitura, a imprensa e o comércio para sempre. Da casca de amoreira ao eucalipto, da folha única ao rolo infinito, o papel é o suporte silencioso sobre o qual toda a história das artes gráficas foi, literalmente, escrita.