Aconteceu a toda a gente que já mandou imprimir algo: aquele azul vibrante ou verde elétrico que era lindo no ecrã saiu, no papel, apagado e triste. Não foi erro da gráfica nem do teu ficheiro. Foi o gamut a fazer o seu trabalho, ou melhor, a mostrar o seu limite. Perceber o gamut é perceber porque é que nem todas as cores são imprimíveis, e é uma das ideias mais úteis (e mais ignoradas) da ciência da cor.
Vamos explicá-lo de forma visual e sem fórmulas.
Gamut: o conjunto de cores que um dispositivo consegue
Gamut (ou gama de cores) é o conjunto de todas as cores que um determinado dispositivo ou sistema consegue reproduzir. É a “paleta máxima” de cada aparelho.
- O teu olho tem o maior gamut de todos, vê milhões de cores.
- Um monitor reproduz uma parte dessas cores (um gamut grande, mas menor que o olho).
- Uma impressora CMYK reproduz uma parte ainda menor, e de forma diferente.
Cada um tem a sua fronteira. E o problema nasce quando uma cor existe dentro do gamut de um dispositivo mas fora do de outro.
Pensa em cada gamut como um saco de berlindes coloridos. O saco do olho tem todas as cores. O saco do monitor tem muitas, mas faltam-lhe alguns. O saco da impressão tem menos ainda. Quando queres uma cor que está no saco do monitor mas não no da impressão, a impressora faz o que pode: dá-te o berlinde mais parecido que tem. Por isso o azul elétrico do ecrã sai num azul mais "comportado" no papel, não porque a impressora errou, mas porque aquele berlinde não existe no saco dela.
Porque é que o ecrã ganha (quase) sempre
Há uma razão física para o ecrã mostrar cores mais vivas do que a impressão consegue: o ecrã emite luz; o papel reflete-a.
- Um monitor cria cor com luz (vermelho, verde e azul a brilhar). Pode produzir cores muito saturadas e luminosas, sobretudo verdes e azuis intensos.
- O papel impresso não brilha, apenas reflete a luz ambiente através de camadas de tinta. A tinta absorve parte da luz, e o resultado é sempre mais contido. Não há tinta CMYK que faça um verde-néon luminoso.
Por isso, regra geral, o gamut do ecrã (RGB) é maior, sobretudo nos tons vivos, do que o gamut da impressão (CMYK). Há, porém, exceções curiosas: certos ciano-esverdeados imprimem-se de forma que alguns ecrãs reproduzem pior. Os gamuts não são só “maior/menor”, têm formas diferentes, e tocam-se e desencontram-se em zonas distintas.
”Fora de gamut”: o que acontece a essas cores
Quando convertes uma imagem de RGB (ecrã) para CMYK (impressão), o software encontra cores fora do gamut do CMYK, cores que a impressão não alcança. Tem de as substituir pela cor imprimível mais próxima. A este processo chama-se mapeamento de gamut (gamut mapping), e a estratégia usada é a intenção de renderização (perceptual, colorimétrica…), que explicámos em detalhe na gestão de cor.
O efeito prático: as cores muito saturadas “encolhem” para dentro do que é possível. Quanto mais a tua imagem depende de cores vivas no limite, mais vais notar a diferença ao imprimir.
Como antecipar (e não levar sustos)
Não precisas de instrumentos caros para evitar a desilusão:
- Trabalha com noção dos limites. Se uma cor parece “néon” ou “elétrica” no ecrã, desconfia: é forte candidata a estar fora do gamut de impressão.
- Usa o aviso de “fora de gamut”. Programas profissionais de imagem têm um aviso (gamut warning) que pinta as zonas da imagem que não vão imprimir como as vês. Liga-o antes de decidir.
- Faz soft proofing. Simula no ecrã (com o perfil da gráfica) como as cores vão sair, incluindo o “apagar” das que estão fora de gamut.
- Escolhe cores um pouco menos saturadas para elementos críticos de marca, para que o ecrã e o papel fiquem mais próximos.
E se a cor da tua marca é aquele verde ou laranja que o CMYK não faz? Há saída: as cores diretas. Uma Pantone (incluindo fluorescentes e metálicas) é uma tinta pré-misturada que estende o gamut para lá do que as quatro cores conseguem. É a forma de imprimir cores que, de outro modo, ficariam para sempre "presas" no ecrã.
Gamuts que vais encontrar pelo nome
Quando lidas com cor, vais cruzar-te com estes “tamanhos de saco”:
- sRGB: o gamut padrão da web e da maioria dos ecrãs. Modesto, mas universal.
- Adobe RGB: maior que o sRGB, sobretudo nos verdes, usado em fotografia e pré-impressão.
- CMYK de impressão (FOGRA, GRACoL…): mais pequeno e de forma própria, varia com o papel e a máquina.
- Gamut da visão humana: o maior de todos; nenhum dispositivo o cobre por inteiro.
Por isso uma foto guardada em Adobe RGB e aberta como sRGB (ou sem perfil) parece lavada: cores que cabiam no saco maior foram espremidas para o menor.
Confusões comuns
“A impressora estragou as minhas cores.” Quase sempre não. As cores estavam fora do gamut da impressão e foram aproximadas. O ecrã prometeu o que a tinta não pode cumprir.
“Se uso um monitor melhor, imprimo cores melhores.” Um monitor melhor mostra mais cores, mas não muda o que a impressão consegue. Pode até piorar a desilusão, porque vês cores ainda mais vivas que não vão imprimir.
“CMYK tem sempre menos cores que RGB.” No geral sim, mas não em tudo. Os gamuts têm formas diferentes; há tons onde o CMYK ou o papel se comportam de modo que certos ecrãs não cobrem. “Menor” não é toda a história.
“Cores fora de gamut são um erro a corrigir.” Não é erro, é uma limitação física. Geres-na (escolhendo cores possíveis, ou usando cores diretas), não a “corriges”.
Em resumo
O gamut é a gama de cores que um dispositivo consegue reproduzir, e o grande facto da vida da cor é que esses gamuts são diferentes: o ecrã, que emite luz, mostra cores vivas que a impressão, que reflete luz, não alcança. As cores fora de gamut são aproximadas no momento de imprimir, daí o azul elétrico que “morre” no papel.
A boa notícia: com avisos de fora de gamut, soft proofing e bom senso na escolha das cores, e, quando é mesmo preciso, com cores diretas, deixas de ser apanhado de surpresa. Passas a saber, antes de imprimir, quais das tuas cores são promessas que o papel pode cumprir e quais ficam só no ecrã.