Imprimiste um cinzento suave e saiu um cinzento sujo e escuro? Uma fotografia que estava perfeita no ecrã ficou “pesada” no papel? Quase de certeza foi o ganho de ponto (dot gain), um dos fenómenos mais importantes (e mais ignorados) da impressão. Perceber isto explica porque é que a cor impressa quase nunca é igual à do monitor.
A retícula: a impressão é feita de pontos
Primeiro, recapitulemos: a impressão (offset, digital) reproduz tons contínuos com uma retícula, milhares de pontos de tamanho variável. Pontos grandes e juntos = zona escura; pontos pequenos = zona clara. Um cinzento a 30% é, na verdade, papel branco coberto a 30% por pequenos pontos de tinta. (Mais sobre isto em como funciona o offset.)
O que é o ganho de ponto
O ganho de ponto é o crescimento desses pontos entre o ficheiro e o papel. Um ponto que devia cobrir 30% da área acaba por cobrir, digamos, 45%. Como há mais tinta do que o previsto, a zona sai mais escura.
Porque acontece: duas causas
O ganho de ponto tem duas componentes:
- Ganho físico (mecânico): quando a tinta líquida toca no papel, espalha-se ligeiramente ao ser absorvida, e a pressão da máquina esmaga um pouco o ponto. O ponto fica fisicamente maior.
- Ganho ótico: mesmo que o ponto não crescesse, a luz que entra no papel dispersa-se por baixo dele e é absorvida nas margens do ponto, fazendo-o parecer maior e mais escuro do que é.
As duas somam-se. O resultado prático: os meios-tons escurecem e o contraste geral muda.
O papel manda (revestido vs não revestido)
A quantidade de ganho depende muito do papel:
- Papel revestido (couché): tem uma camada que seguram a tinta à superfície. A tinta espalha-se pouco → ganho de ponto baixo. Cores mais vivas e fiéis.
- Papel não revestido (offset, reciclado): é poroso e absorve a tinta como um mata-borrão → ganho de ponto alto. Os meios-tons escurecem bastante mais.
É por isto que a mesma imagem sai diferente em couché e em papel natural, e porque o mesmo ficheiro precisa de perfis diferentes para cada papel.
Nas normas modernas, o ganho de ponto chama-se TVI (Tone Value Increase, aumento do valor tonal). É medido com um densitómetro/espetrofotómetro e descrito nas condições de impressão normalizadas, por exemplo, o FOGRA39 descreve o comportamento típico do couché europeu, incluindo o seu TVI. É essa curva que os perfis ICC usam para compensar.
Como se compensa (e porque não precisas de fazer contas)
A boa notícia: não tens de corrigir o ganho de ponto à mão. É para isso que servem os perfis ICC e o fluxo de cor:
- O perfil de impressão (ex.: FOGRA39) já sabe quanto aquele papel/máquina vai escurecer.
- Quando converte/imprime com esse perfil, o sistema aclara antecipadamente os meios-tons o suficiente para que, depois do ganho, saiam certos.
Por isso, o teu trabalho é simples: usa o perfil da gráfica e faz soft proofing para veres a simulação antes de imprimir. O perfil trata da compensação.
O que isto significa para o teu design
- Evita zonas muito escuras “no limite”. Sombras com 90%+ em vários canais podem “encher” (os pontos juntam-se) e perder detalhe, viram uma mancha chapada. Dá respiração às sombras.
- Cuidado com tons muito claros. Tintas abaixo de ~3-5% podem desaparecer (no sentido oposto ao ganho, chamam-lhe ponto mínimo). Um gradiente que termina em 2% pode “cortar” de repente.
- Em papel não revestido, espera cores mais apagadas e escuras. Não é defeito, é o papel. Escolhe-o sabendo disso.
Confusões comuns
“A minha imagem está escura, a gráfica errou.” Pode ser ganho de ponto previsível, sobretudo em papel não revestido, não um erro. Por isso se pede prova de cor: mostra o resultado real antes da tiragem.
“Vou escurecer as sombras para ficarem ricas.” Cuidado: com o ganho, sombras muito carregadas tapam-se e perdem detalhe. Muitas vezes é melhor o contrário, aliviar.
“O ganho de ponto é só no offset.” É mais notório no offset com tinta líquida em papel poroso, mas qualquer processo com retícula tem algum ganho (físico e ótico). O digital a toner tem o seu próprio comportamento, também descrito por perfis.
Em resumo
O ganho de ponto é o crescimento dos pontos de retícula entre o ficheiro e o papel (por espalhamento físico da tinta e por dispersão ótica da luz), que faz os meios-tons saírem mais escuros, muito mais em papel não revestido. Não se corrige à mão: os perfis ICC (FOGRA, etc.) compensam-no automaticamente. O teu papel é usar o perfil certo, dar respiração às sombras e confirmar com uma prova.