Quando pensas em “jato de tinta”, talvez te venha à cabeça aquela impressora barata de secretária que gastava tinteiros a um ritmo doloroso. Esquece essa imagem. O inkjet de produção é hoje uma das forças mais poderosas e em mais rápido crescimento de toda a impressão industrial, imprime outdoors gigantes, milhões de livros, embalagem, têxtil, azulejo e até pavimentos. Ao lado do toner e da HP Indigo, é o terceiro grande ramo da impressão digital, e, em muitos aspetos, o mais versátil.
Este artigo explica como o jato de tinta cresceu até à escala industrial, as suas tecnologias e tintas, e quem domina o setor.
O princípio: disparar gotas microscópicas
A ideia do inkjet é simples e genial: disparar gotas minúsculas de tinta, com precisão, diretamente sobre o material, sem qualquer contacto físico nem chapa. Cada gota é colocada no sítio exato definido pelo ficheiro. Sem chapas, sem cilindros gravados, sem cortantes, só tinta a voar para o lugar certo, milhões de gotas por segundo.
Há duas grandes famílias técnicas de como essas gotas são geradas:
- Gota a pedido (drop-on-demand, DOD): a tinta só é disparada quando e onde é precisa. É a tecnologia da esmagadora maioria das máquinas. Subdivide-se em:
- Térmico (thermal): uma minúscula resistência aquece a tinta, cria uma bolha de vapor que expele a gota. Simples e barato (é a base de muitas impressoras de consumo e de algumas industriais).
- Piezoelétrico (piezo): um cristal piezoelétrico deforma-se com um impulso elétrico e “empurra” a gota. Mais preciso, durável e compatível com mais tipos de tinta, domina a impressão profissional e industrial.
- Jato contínuo (continuous inkjet, CIJ): um fluxo contínuo de gotas é gerado e as que não são precisas são desviadas e recicladas. Usa-se em codificação industrial (datas, lotes) e em algumas prensas de altíssima velocidade.
Há duas arquiteturas que mudam tudo. No scanning (varrimento), uma cabeça de impressão desloca-se de um lado ao outro enquanto o material avança, é o método das impressoras de grande formato (mais lento, mas flexível). No single-pass (passagem única), uma barra fixa de cabeças cobre toda a largura do material, que passa por baixo a alta velocidade, imprimindo tudo de uma só vez, é assim que as prensas inkjet de produção atingem velocidades industriais (livros, jornais, embalagem aos milhares por hora). Single-pass é ao inkjet o que a linha de montagem foi à indústria.
As tintas: a verdadeira versatilidade
Se há algo que distingue o inkjet, é a variedade de tintas, e é a tinta que define em que materiais se pode imprimir e para que serve cada máquina:
| Tinta | Como seca/fixa | Onde se usa |
|---|---|---|
| Aquosa (aqueous) | Água que evapora/absorve | Papel (tratado/revestido), fotografia, livros, provas |
| UV (cura UV) | Endurece instantaneamente sob luz UV | Quase tudo: plástico, vidro, metal, madeira, rígidos |
| Látex | Polímeros + água, fixados a calor | Sinalética, decoração, papel de parede, materiais flexíveis |
| Solvente / eco-solvente | Solvente que evapora | Exterior durável: lonas, autocolantes, viaturas |
| Sublimação (dye-sub) | Tinta que vira gás e tinge o material | Têxtil de poliéster, bandeiras, desporto |
A tinta UV é, talvez, a mais revolucionária: como cura na hora sob luz ultravioleta, adere a praticamente qualquer superfície, incluindo materiais não absorventes que mais nenhuma técnica imprime bem diretamente. É o que faz do inkjet o rei da impressão sobre objetos, rígidos e materiais industriais.
Onde o inkjet manda
A combinação de sem chapas + dados variáveis + escala de formato + variedade de tintas levou o inkjet a territórios que nenhuma outra técnica cobre tão bem:
- Grande formato e super formato: cartazes, lonas, outdoors, decoração de montras, viaturas (wraps), telas, o inkjet domina por completo.
- Produção editorial e transacional: livros sob demanda, jornais, direct mail personalizado, faturas, em prensas single-pass de altíssima velocidade.
- Embalagem: caixas de cartão e canelado impressos diretamente, rótulos, pré-impressão.
- Têxtil: impressão direta ao tecido e por sublimação, moda, desporto, decoração.
- Industrial e decoração: azulejo e cerâmica, painéis de madeira/laminado (imitação de madeira), vidro, eletrónica. Aquela “madeira” do teu pavimento ou móvel pode ser inkjet.
O salto para a qualidade de offset
Durante anos, o inkjet teve fama de “rápido mas grosseiro”. Isso acabou. A precisão das cabeças piezo, gotas cada vez mais pequenas e tintas melhores levaram o inkjet a rivalizar com o offset na qualidade, e até a invadir o seu formato:
- A Fujifilm Jet Press é uma prensa inkjet de folha no formato B2 (~50×70) com qualidade de classe offset, atacando o coração da impressão comercial.
- A Landa, do mesmo Benny Landa da Indigo, criou a “Nanografia”, inkjet com pigmentos em nanopartículas, prometendo qualidade e velocidade altíssimas em B1.
O inkjet deixou de ser só “o grande formato barato” para ser uma tecnologia que disputa, de frente, os trabalhos comerciais de qualidade.
Ambos são impressão digital sem chapas, mas com forças distintas. O toner (pó fundido) brilha no escritório e na folha pequena/média de qualidade. O inkjet (tinta líquida disparada) escala muito melhor para grandes formatos, altas velocidades e a enorme variedade de materiais (sobretudo com tinta UV). Não competem tanto como se completam: cada um cobre uma faixa do imenso território digital.
Quem domina o mercado
O setor do inkjet de produção é vasto, repartido por especialidades:
| Marca | Forte em |
|---|---|
| HP | PageWide (produção), Latex (sinalética/decoração), DesignJet, Scitex (grande formato) |
| Canon | ProStream e Colorado (ex-Océ), grande formato e produção |
| Epson | Tecnologia piezo de precisão; SureColor (grande formato), SurePress (rótulos) |
| Fujifilm | Jet Press (B2 de classe offset), cabeças de impressão (Dimatix) |
| Landa | Nanografia (nanopartículas, B1) |
| Durst, Mimaki, Roland, swissQprint | Grande formato, industrial, têxtil, rígidos |
| Kodak, Ricoh, Screen | Prensas de produção de alta velocidade (livros, transacional) |
Muitas destas empresas fabricam também as cabeças de impressão que equipam máquinas de terceiros, um negócio dentro do negócio.
Confusões comuns
“Inkjet é a impressorazinha de casa.” Essa é a ponta de consumo. O inkjet de produção é maquinaria industrial que imprime outdoors, milhões de livros, embalagem e azulejo, a velocidades e formatos que a de secretária nem sonha.
“Jato de tinta é de pior qualidade que offset.” Já não é regra. Prensas como a Fujifilm Jet Press atingem qualidade de classe offset em B2; o grande formato inkjet é o padrão da indústria de sinalética.
“O inkjet imprime em qualquer papel.” Depende da tinta. A aquosa precisa de papel adequado (tratado/revestido) ou fica com aspeto fraco; a UV é que imprime em quase tudo. Casar tinta e material é essencial.
“Toner e inkjet são a mesma coisa porque são digitais.” São digitais, mas o toner usa pó fundido e o inkjet dispara tinta líquida. Têm forças diferentes: toner na folha de qualidade, inkjet no grande formato, na velocidade e na variedade de materiais.
Em resumo
O inkjet de produção leva o princípio do jato de tinta, disparar gotas microscópicas, sem contacto nem chapas, à escala industrial. As tecnologias térmica e (sobretudo) piezoelétrica, em arquiteturas de passagem única velocíssimas, combinam-se com uma paleta de tintas única (aquosa, UV, látex, solvente, sublimação) que lhe abre praticamente todos os materiais e formatos.
É o ramo mais versátil e em mais rápido crescimento da impressão digital: domina o grande formato, a decoração, o têxtil e o industrial, e, com máquinas como a Fujifilm Jet Press e a Landa, disputa já a qualidade e o formato do offset comercial. Da impressorazinha de secretária à máquina que imprime o teu pavimento, o jato de tinta cresceu mais do que qualquer outra técnica gráfica.