Quando imprimes umas centenas de folhetos, um livro em tiragem curta ou material personalizado, há uma boa hipótese de saírem de uma máquina digital de toner, a tecnologia que pôs a impressão profissional ao alcance das tiragens pequenas. É uma invenção com uma história improvável: nasceu da frustração de um homem com mãos cansadas, foi recusada por dezenas de grandes empresas, e acabou por dar nome a um verbo (em inglês, “to xerox” = fotocopiar).
Este artigo conta como nasceu a xerografia, como funciona o toner, e quem são os grandes fabricantes destas máquinas. É o complemento natural ao impressão digital vs offset.
A invenção: Chester Carlson e a xerografia
No final dos anos 1930, Chester Carlson era um funcionário de patentes em Nova Iorque, farto de copiar documentos à mão e com artrite nas mãos. Procurou uma forma de copiar automaticamente, e, estudando física, deu com um princípio genial: a eletrofotografia, baseada na eletrostática e na fotocondutividade (certos materiais conduzem eletricidade quando expostos à luz).
A 22 de outubro de 1938, no seu pequeno laboratório improvisado, Carlson produziu a primeira imagem do género, copiou numa placa a inscrição “10-22-38 Astoria” (a data e o local). Tinha nascido a xerografia.
O caminho até ao produto foi penoso: Carlson foi recusado por mais de 20 empresas (incluindo gigantes como a IBM e a Kodak), que não viram futuro na ideia. Só em 1944 um instituto de investigação pegou nela, e depois uma pequena empresa, a Haloid Company, a licenciou, viria a chamar-se Xerox.
O nome xerografia vem do grego xeros (seco) + graphia (escrita): "escrita a seco". Era a grande novidade face aos processos químicos húmidos da época, copiava-se com pó (toner) e eletricidade, sem tinta líquida nem produtos químicos. A palavra deu o nome à empresa (Xerox) e, em inglês, tornou-se sinónimo de fotocopiar. Poucas invenções deixam a sua marca até no dicionário.
A Xerox 914 e a revolução da cópia
Em 1959, a Xerox lançou a Xerox 914, a primeira fotocopiadora automática de papel comum da história. Foi um sucesso estrondoso que transformou os escritórios do mundo e tornou a Xerox numa gigante. A máquina era tão revolucionária que muitos clientes nem acreditavam que funcionava sem papel especial.
Mas a 914 era uma copiadora analógica (copiava um original óptico). A verdadeira impressão digital, imprimir diretamente de um ficheiro, sem original, chegaria décadas depois, quando os computadores e os lasers amadureceram.
Como funciona o toner (eletrofotografia)
O princípio de Carlson continua no coração de cada máquina de toner atual. Em seis passos:
- Carga: um cilindro fotocondutor (o tambor) é carregado eletrostaticamente, ficando uniformemente eletrizado.
- Exposição: um laser (ou um conjunto de LED) “escreve” a imagem no tambor, descarregando os pontos onde a imagem vai ficar. Forma-se uma imagem latente invisível, feita de cargas elétricas.
- Revelação: o toner, um pó finíssimo de partículas de plástico com pigmento, eletricamente carregado, é atraído para as zonas certas do tambor, tornando a imagem visível.
- Transferência: a imagem de toner passa do tambor para o papel (diretamente ou através de uma correia intermédia).
- Fusão: o papel passa por rolos quentes que derretem o toner e o fundem permanentemente na fibra. (É por isso que uma folha acabada de imprimir sai morna.)
- Limpeza: o tambor é limpo e recomeça o ciclo, milhares de vezes por hora.
Para imprimir a cores, repete-se o processo com quatro toners, CMYK, e, em máquinas de produção, por vezes com toners especiais adicionais (branco, transparente para verniz, dourado, cores fluorescentes).
Como o toner é uma camada de plástico fundida à superfície (e não absorvida como a tinta), tem tendência a estalar quando se dobra o papel, sobretudo em gramagens altas e áreas de cor cheia. Por isso o acabamento digital exige quase sempre vincar antes de dobrar, um pormenor que deu origem a máquinas de acabamento próprias para o digital. A natureza do toner molda a forma como se termina o trabalho.
Da copiadora à máquina de produção digital
A passagem de “fotocopiadora” a “máquina de impressão digital de produção” deu-se nos anos 1990:
- 1990, Xerox DocuTech: um sistema digital de produção (a preto e branco) que revolucionou a impressão de livros e documentos sob demanda. Imprimia diretamente de ficheiros, em alto volume.
- 1993, a cor digital chega: no salão IPEX desse ano apareceram as primeiras prensas digitais a cores, abrindo a era da impressão digital de produção a cores (incluindo a tecnologia que daria origem à HP Indigo e às máquinas de toner líquido e seco).
- 2001, Xerox iGen: uma prensa digital de produção a cores de grande capacidade, que se tornou referência da indústria.
A partir daí, a impressão digital de toner deixou de ser “a fotocopiadora do escritório” para ser uma máquina de artes gráficas a sério, com qualidade próxima do offset em tiragens curtas e médias.
Quem domina o mercado
O setor das máquinas digitais de toner de produção é disputado por um punhado de grandes fabricantes, quase todos com raízes na fotocopiadora e na fotografia:
| Marca | Origem / notas |
|---|---|
| Xerox | A pioneira da xerografia; gamas iGen, Versant, Iridesse (com toners especiais metálicos). |
| Konica Minolta | Fusão (2003) de duas casas históricas da foto e da ótica; gama AccurioPress (e a antiga bizhub PRESS), forte em toners especiais. |
| Ricoh | Gigante japonês; gama Pro; absorveu a divisão de impressão da IBM. |
| Canon | Gama imagePRESS; reforçou-se na produção com a compra da Océ (2010). |
| Fujifilm | Durante décadas atuou via Fuji Xerox (joint-venture com a Xerox no Japão e na Ásia); hoje, autónoma, com gamas próprias de produção (Revoria/Apeos). |
| Xeikon | Casa belga pioneira (1993) da impressão digital de toner em bobine, forte em rótulos e embalagem. |
Cada uma tem as suas forças, umas brilham na cor e nos toners especiais, outras no volume, outras na bobine para rótulos. Mas todas descendem, em linha direta, do princípio que Carlson rabiscou numa placa em 1938.
Quando compensa o toner digital
A máquina de toner é a resposta certa quando o trabalho pede:
- Tiragens curtas e médias (de unidades a alguns milhares), sem custo de chapas.
- Dados variáveis, cada folha pode ser diferente (nomes, números, versões).
- Rapidez e prazos apertados, imprime já, sem preparação demorada.
- Impressão sob demanda, imprimir só o que é preciso, quando é preciso, sem stocks.
Para grandes tiragens, o offset continua imbatível no custo por unidade, mas abaixo do ponto de equilíbrio, o toner digital domina.
Confusões comuns
“Impressão a laser e impressão a toner são coisas diferentes.” São a mesma família. O “laser” é o que escreve a imagem no tambor; o toner é o pó que a forma. “Impressora laser” e “impressora de toner” referem-se ao mesmo processo (eletrofotografia).
“Toner é tinta.” Não. Tinta é líquida e absorve-se/seca; toner é um pó de plástico com pigmento que se funde na superfície com calor. Daí estalar na dobra e exigir vinco.
“A Xerox inventou a impressão digital.” A Xerox (via Carlson/Haloid) inventou a xerografia e a fotocopiadora. A impressão digital de produção (de ficheiro, sem original) amadureceu nos anos 1990, com várias empresas a contribuir.
“Estas máquinas são fotocopiadoras grandes.” Já não. Uma prensa digital de produção é uma máquina de artes gráficas com controlo de cor, gestão de substratos, toners especiais e acabamento, outra liga face à copiadora de escritório.
Em resumo
A impressão digital de toner nasceu da xerografia, inventada por Chester Carlson em 1938 e levada ao mundo pela Xerox (a 914, de 1959). O seu princípio, carregar um tambor, escrever a imagem com laser, revelá-la com toner e fundi-la no papel, continua igual em cada máquina atual. Nos anos 1990, evoluiu de fotocopiadora para prensa digital de produção, e hoje é disputada por Xerox, Konica Minolta, Ricoh, Canon, Fujifilm e outras.
É a tecnologia que tornou viáveis as tiragens curtas, a personalização e a impressão sob demanda, e que, com os seus formatos e a sua natureza própria (o toner que estala na dobra), deu origem a toda uma geração de máquinas de acabamento digital. Da placa rabiscada num laboratório de Astoria saiu metade da impressão do mundo moderno.