A história do verniz é, em grande parte, a história da obsessão humana com a superfície. Desde que aprendemos a fazer objectos, quisemos protegê-los, e embelezá-los. O verniz foi sempre as duas coisas ao mesmo tempo: proteção e promessa.

Na indústria gráfica, essa obsessão tem uma história que começa muito antes da imprensa, e que ainda está a ser escrita.

A laca: o primeiro verniz da história

O verniz mais antigo conhecido pela humanidade não veio da Europa. Veio da Ásia, há mais de 8.000 anos.

A laca, extraída da seiva da árvore Toxicodendron vernicifluum, nativa da China e do Japão, foi o primeiro material de revestimento de superfície verdadeiramente sofisticado da história. Aplicada em camadas sucessivas sobre madeira, cerâmica ou tecido, a laca cria uma superfície extraordinariamente dura, impermeável, resistente ao calor e aos ácidos, e com um brilho profundo inigualável.

Os primeiros objectos lacados conhecidos datam de cerca de 5000 a.C., encontrados em sítios arqueológicos na China. No Japão, a arte da laca, chamada urushi, atingiu um refinamento técnico extraordinário: peças com dezenas de camadas aplicadas ao longo de meses, cada camada polida antes da seguinte, criando profundidades visuais que nenhum verniz moderno consegue replicar.

A laca chegou à Europa pelos mercadores que percorriam a Rota da Seda, e tornou-se moda nas cortes europeias do século XVII, os famosos móveis “laqueados” que imitavam (nem sempre com sucesso) os originais asiáticos. Mas a laca verdadeira nunca se adaptou à produção industrial europeia: a seiva da árvore é altamente alergénica, a aplicação exige condições de humidade e temperatura muito controladas, e o processo é demasiado lento para qualquer escala industrial.

A Europa teve de encontrar os seus próprios vernizes.

Resinas naturais: o arsenal dos encadernadores medievais

Na Europa medieval, os artesãos que protegiam superfícies, encadernadores, pintores, marceneiros, ourives, trabalhavam com um arsenal de resinas naturais dissolvidas em álcool ou óleos:

Colofónia (resina de pinheiro): barata e abundante, usada em vernizes de baixa qualidade e como base para outros compostos.

Dammar: resina extraída de árvores do Sudeste Asiático, muito apreciada pelos pintores flamengos e holandeses do século XVII para vernizar telas, dava brilho sem amarelecer excessivamente.

Copal: resina fóssil de origem tropical, mais dura que o dammar, usada em vernizes para madeira e couro.

Shellac: resina de inseto que já abordámos noutro artigo, o verniz de referência da indústria gráfica durante séculos.

Cada resina tinha as suas propriedades específicas, os seus segredos de formulação, os seus usos ideais. O conhecimento era transmitido de mestre para aprendiz, muitas vezes em segredo, as fórmulas dos melhores vernizes eram segredos comerciais guardados com o mesmo cuidado que hoje se guardam fórmulas de software.

A produção de vernizes era uma profissão em si mesma. Em Londres, Paris e Amesterdão existiam “casas de verniz” especializadas que forneciam encadernadores, impressores e pintores com as suas formulações proprietárias. Algumas destas casas tinham catálogos com dezenas de vernizes diferentes para aplicações específicas.

A revolução dos vernizes sintéticos: o século XX

A primeira metade do século XX foi um período de transformação radical na química dos vernizes, impulsionada pelo desenvolvimento de polímeros sintéticos.

O nitrocelulose, desenvolvido no final do século XIX como explosivo (é o componente da pólvora sem fumo), descobriu-se rapidamente como base excelente para vernizes rápidos, secava em minutos em vez de horas, dava superfícies lisas e brilhantes, e podia ser produzido industrialmente em grandes quantidades. A indústria automóvel adotou-o para lacas de carroçaria nos anos 20; a indústria gráfica seguiu-se.

O poliuretano, desenvolvido na Alemanha nos anos 30, abriu possibilidades novas, vernizes mais flexíveis, mais resistentes à abrasão, aplicáveis em superfícies que os vernizes de nitrocelulose não conseguiam cobrir bem.

O acrílico, popularizado nos anos 50, tornou-se a base dos vernizes aquosos modernos, os chamados vernizes de máquina que as gráficas aplicam inline na impressão offset.

Cada nova família de polímeros trouxe novas possibilidades, e novos problemas. A maioria dos vernizes sintéticos da primeira metade do século XX secava por evaporação de solventes, e os solventes eram frequentemente tóxicos, inflamáveis, e ambientalmente problemáticos.

A indústria gráfica precisava de algo diferente.

A descoberta acidental da cura UV

A história da cura ultravioleta tem, como tantas descobertas importantes, uma origem acidental.

Nos anos 60, investigadores de empresas químicas, entre elas a BASF na Alemanha e a Sun Chemical nos Estados Unidos, estavam a estudar as propriedades de certas resinas acrílicas quando descobriram algo inesperado: algumas formulações solidificavam quase instantaneamente quando expostas a luz ultravioleta de alta intensidade.

O fenómeno era conhecido em química, a fotopolimerização já era usada em processos fotográficos e na produção de circuitos impressos. Mas aplicá-la a vernizes industriais para impressão era uma ideia nova.

O desenvolvimento foi rápido. Em 1968, as primeiras máquinas de verniz UV para aplicação industrial foram apresentadas em feiras gráficas europeias. Em 1970, algumas das maiores gráficas da Alemanha e do Reino Unido já tinham instalado sistemas de verniz UV.

As vantagens eram imediatas e óbvias:

Cura instantânea, em vez de horas ou minutos, o verniz UV solidificava em milissegundos. Uma linha de produção podia trabalhar a velocidades impossíveis com qualquer verniz convencional.

Sem solventes, o verniz UV cura por reação química, não por evaporação. Eliminava os problemas de toxicidade, inflamabilidade e emissão de compostos orgânicos voláteis associados aos vernizes de solvente.

Dureza superior, o verniz UV curado é quimicamente diferente de qualquer verniz de secagem convencional. É, literalmente, um plástico, e tem a dureza e resistência dos plásticos.

A desvantagem inicial era o custo: as lâmpadas UV de alta intensidade necessárias para a cura eram caras, consumiam muita energia, e tinham vida útil limitada. Mas o custo foi caindo progressivamente ao longo dos anos 70 e 80 à medida que a tecnologia amadurecia.

O verniz de reserva: quando o spot UV nasceu

O verniz UV total, cobrindo toda a superfície, foi a primeira aplicação. Mas rapidamente a indústria percebeu que o verniz UV poderia ser aplicado seletivamente, criando contrastes visuais impossíveis com qualquer técnica anterior.

O verniz UV de reserva, ou spot UV, na terminologia inglesa que se generalizou, surgiu como técnica comercial nos anos 80. A ideia era simples: usar uma chapa ou tela para aplicar verniz UV apenas em zonas específicas, deixando o resto da superfície sem verniz (ou com plastificado mate, para maximizar o contraste).

O efeito criado, zonas brilhantes sobre fundo mate, era imediatamente reconhecível como “premium”. Marcas de cosméticos, editoras de luxo e agências de publicidade adotaram-no rapidamente como sinal de qualidade e atenção ao detalhe.

Nos anos 90 e 2000, o verniz UV de reserva sobre plastificado mate democratizou-se progressivamente. O que era exclusivo de grandes marcas tornou-se acessível a gráficas médias e até pequenas.

O LED UV: a última revolução

A mais recente evolução na história do verniz UV chegou com a substituição das lâmpadas UV tradicionais por LEDs de alta potência.

As lâmpadas UV convencionais, tipicamente de mercúrio ou gálio, tinham limitações sérias: consumiam muita energia, geravam calor considerável, degradavam-se progressivamente, e continham mercúrio (um metal pesado de difícil eliminação). Precisavam de aquecimento antes de funcionarem e de arrefecimento depois.

Os LEDs UV resolveram todos estes problemas simultaneamente. Ligam e apagam instantaneamente, não geram calor significativo na superfície do material, consomem uma fração da energia das lâmpadas convencionais, duram dezenas de milhares de horas sem degradação, e não contêm substâncias perigosas.

A transição para LED UV começou nos anos 2010 e acelerou na última década. Hoje, as novas instalações gráficas optam quase universalmente por LED UV, tanto para verniz como para secagem de tintas offset UV.

A menor geração de calor do LED UV abriu também possibilidades novas: materiais sensíveis ao calor, filmes plásticos finos, papéis especiais, substratos sintéticos, que o UV convencional danificava podem agora ser processados sem problemas.

Oito mil anos de superfície

Da laca japonesa aplicada à mão em dezenas de camadas ao LED UV que cura verniz em milissegundos numa linha de produção automatizada, há uma linha contínua de oito mil anos de tentativas de melhorar a superfície dos objectos que fazemos.

A obsessão não mudou. O que mudou foi a velocidade, a escala, e a precisão com que conseguimos satisfazê-la.

O próximo trabalho que especificares com verniz UV de reserva é, de certa forma, herdeiro directo dos artesãos japoneses que aplicavam laca urushi camada a camada, à trincha, à luz de velas. O gesto é diferente. A intenção, proteger e embelezar a superfície, é exactamente a mesma.