Há profissões que desapareceram sem deixar rasto. E há profissões que desapareceram mas deixaram os seus produtos para trás, objetos que continuam a existir, a ser usados, e a ser admirados, muito depois de quem os fez ter sido esquecido.

O encadernador é uma dessas profissões. Durante mil anos, foi um dos artesãos mais valorizados e mais bem pagos da Europa. Hoje, a encadernação artesanal de qualidade é praticada por uma pequena comunidade de especialistas, e a maior parte dos livros do mundo é encadernada por máquinas que nunca aprenderam o nome de nenhuma costura.

Esta é a história de como chegámos até aqui.

Antes da encadernação: os suportes que precederam o livro

Para perceber a história da encadernação, é preciso perceber porque é que o livro existia antes de alguém ter de o encadernar.

Durante milénios, os textos escritos circulavam em suportes que não precisavam de encadernação: tabletas de argila na Mesopotâmia, rolos de papiro no Egipto e no mundo greco-romano, tiras de bambu na China. Estes suportes tinham as suas formas de organização, os rolos eram enrolados, as tabletas empilhadas, os bambus atados, mas nenhum deles era “encadernado” no sentido moderno.

A encadernação surgiu com o códice (do latim caudex, tronco de árvore, referência às antigas tábuas de cera usadas como cadernos), o ancestral direto do livro moderno, feito de folhas de pergaminho dobradas e cosidas. O códice apareceu no primeiro século d.C. e substituiu progressivamente o rolo ao longo dos primeiros séculos cristãos. E o códice precisava de alguém que o construísse, de capas que o protegessem, de uma estrutura que mantivesse as folhas juntas.

Esse alguém foi o encadernador.

Os monges encadernadores

Durante os séculos VI a XII, a produção de livros na Europa Ocidental era quase exclusivamente monástica. Os mosteiros eram simultaneamente as únicas instituições com recursos para comprar pergaminho e materiais de escrita, as únicas com pessoal com literacia suficiente para copiar e encadernar, e as únicas com razões práticas para produzir livros em quantidade, para os serviços religiosos, para a educação dos noviços, para a biblioteca do mosteiro.

Os monges que encadernavam livros eram simultaneamente escribas, iluminadores e encadernadores, o processo de produção de um livro era integral, da preparação do pergaminho ao polimento da capa final. Não havia especialização: a mesma pessoa que copiava o texto cosia as páginas e montava a capa.

As capas destes livros monásticos eram funcionais mas frequentemente extraordinárias. Feitas de madeira (carvalho, faia, cedro) coberta de couro, eram reforçadas com ferragens metálicas nos cantos e fechos no meio para manter o pergaminho plano. Alguns livros tinham capas cobertas de marfim entalhado, pedras preciosas, e ouro, não por ostentação, mas porque o livro sagrado era tratado como relíquia, e as relíquias mereciam relicários preciosos.

O mais famoso destes livros é provavelmente o Livro de Kells (c. 800 d.C.), um evangelho iluminado irlandês cuja encadernação original foi roubada e nunca recuperada. A encadernação atual é do século XIX, o que nos lembra que mesmo os livros mais importantes da história perderam frequentemente as suas capas originais ao longo dos séculos.

A revolução dos encadernadores laicos

A partir do século XII, com o crescimento das universidades europeias, a produção de livros começou a sair dos mosteiros. Paris, Bolonha, Oxford, as primeiras universidades criaram uma procura de livros que os monges não conseguiam satisfazer sozinhos.

Surgiram os primeiros encadernadores laicos, artesãos profissionais, não religiosos, que se especializaram exclusivamente em encadernar. Em Paris, formaram-se as primeiras corporações de encadernadores, com regras rígidas sobre materiais, técnicas, e preços.

Estes encadernadores medievais laicos desenvolveram uma divisão de trabalho que se manteve essencialmente inalterada durante séculos: o costurador cosia os cadernos; o encadernador montava a estrutura e a capa; o dourador aplicava decoração dourada na capa e lombada.

A especialização criou qualidade extraordinária. Os encadernadores parisienses do século XIII eram considerados os melhores do mundo, e os seus clientes mais importantes eram as universidades, os mosteiros ricos, e a crescente classe de aristocratas que colecionavam livros como símbolos de prestígio.

Gutenberg e o problema da escala

A invenção da imprensa por Gutenberg em meados do século XV criou um paradoxo estranho para a encadernação.

Por um lado, a imprensa multiplicou dramaticamente o número de livros produzidos, onde antes um scriptorium monástico produzia dezenas de livros por ano, uma prensa tipográfica podia produzir centenas ou milhares. Havia muito mais trabalho para os encadernadores.

Por outro lado, os compradores de livros impressos eram frequentemente burgueses urbanos com menos recursos do que os mecenas aristocráticos que encomendavam manuscritos. Queriam livros mais baratos, o que significava encadernações mais simples.

A solução foi a encadernação de editor, uma encadernação standard, simples, feita em série para todos os exemplares de uma edição. Em vez de cada comprador mandar encadernar o seu exemplar individualmente (o que era a prática anterior), os editores começaram a vender livros já encadernados.

Esta mudança foi profunda: deslocou o centro de decisão da encadernação do comprador para o editor, criou padrões estéticos mais uniformes, e reduziu dramaticamente os custos, mas também reduziu a qualidade média das encadernações.

Os encadernadores reais: quando a capa valia mais que o conteúdo

Paralelamente à democratização da encadernação, o século XVI e XVII assistiram ao apogeu da encadernação de luxo europeia, capas tão elaboradas e valiosas que frequentemente valiam mais do que os livros que protegiam.

Os encadernadores reais, os artesãos que trabalhavam para as cortes europeias, eram figuras de prestígio comparável a pintores e escultores de câmara. Desenvolveram técnicas que ainda hoje são consideradas o ponto mais alto da encadernação ocidental:

Douramento a ouro: ouro real em folha, aplicado com ferros aquecidos através de uma técnica de pressão controlada que transfere o ouro para o couro. Introduzida na Europa pelos encadernadores venezianos no século XV, que a aprenderam com artesãos islâmicos.

Fanfare: um estilo de decoração desenvolvido em França no século XVI, com padrões geométricos intrincados de douramento que cobrem toda a capa. Os melhores exemplares de fanfare levavam semanas a completar.

Encadernação à Grolier: Jean Grolier de Servières (1489-1565), bibliófilo e mecenas francês, encomendou centenas de livros encadernados num estilo específico, padrões geométricos interlaced em dourado sobre couro, com o seu nome inscrito na capa. Os livros “à Grolier” tornaram-se tão famosos que são hoje colecionados como obras de arte independentes do texto que contêm.

Mosaico: couro de várias cores recortado e incrustado na capa, criando padrões cromáticos de extraordinária sofisticação. A técnica exigia meses de trabalho por exemplar.

A industrialização e o fim de uma era

A Revolução Industrial do século XIX mudou a encadernação tão radicalmente como tinha mudado tudo o resto.

Em 1820, Archibald Leighton introduziu em Londres a primeira máquina de encadernar em série, capaz de produzir centenas de encadernações por dia com consistência que nenhum artesão conseguia. Em poucas décadas, a maior parte da produção de livros tinha migrado para processos industriais.

Os encadernadores artesanais reagiram de duas formas: alguns adaptaram-se à indústria, tornando-se supervisores e técnicos nas novas fábricas; outros retiraram-se para o nicho da encadernação de luxo e da restauro, onde as máquinas não conseguiam competir.

Em 1874, fundou-se em Nova Iorque o Grolier Club, um clube de bibliófilos dedicado a preservar e celebrar as tradições da encadernação artesanal, em honra do grande colecionador francês do século XVI. Em 1897, nasceu a Arts and Crafts Bookbinding, um movimento que procurava recuperar os valores do artesanato manual face à produção industrial.

Estes movimentos foram importantes culturalmente, mas não travaram a industrialização. Em 1900, a esmagadora maioria dos livros do mundo já era encadernada por máquinas.

O século XX e a encadernação como arte

O século XX viu dois desenvolvimentos paralelos na encadernação.

Por um lado, a indústria continuou a evoluir, máquinas mais rápidas, colas melhores, sistemas mais eficientes. A lombada quadrada (perfect binding) foi o grande salto dos anos 40 e 50, tornando possível produzir livros de bolso a custos sem precedentes.

Por outro lado, a encadernação artesanal encontrou um novo papel como arte e expressão criativa. Encadernadores como Edgar Mansfield no Reino Unido e Paul Bonet em França tratavam cada encadernação como uma escultura individual, capas com relevos abstratos, texturas inventadas, combinações de materiais que os seus predecessores nunca teriam imaginado.

Hoje, a encadernação artesanal de alta qualidade é praticada por uma comunidade pequena mas apaixonada em todo o mundo, incluindo em Portugal, onde resistem alguns mestres que ainda executam técnicas medievais com materiais e ferramentas tradicionais.

O que se perdeu e o que fica

A história da encadernação é, em muitos aspectos, uma história de perda. Perdemos os encadernadores reais. Perdemos o douramento a ouro manual como prática comum. Perdemos a ideia de que o exterior de um livro merece tanta atenção artística como o interior.

Mas ficámos com algo que os encadernadores medievais não tinham: a possibilidade de qualquer pessoa, com paciência, agulha, e linha, aprender as técnicas básicas de costura copta ou japonesa e fazer o seu próprio caderno com as suas próprias mãos.

E ficámos com os livros que eles fizeram. Nas bibliotecas e nos museus do mundo, as encadernações medievais e renascentistas continuam a existir, algumas em estado perfeito após 600 ou 700 anos. É o melhor argumento para a costura sobre a cola. E para a paciência sobre a velocidade.