Olha à tua volta, para um letreiro de metro, um logótipo de uma grande marca, um formulário oficial, a embalagem de um produto. Há uma forte probabilidade de estares a olhar para a Helvetica, ou para uma fonte que a imita. É, sem grande discussão, a fonte mais usada do mundo, tão presente que se tornou quase invisível. Mas por trás desta letra “neutra” há uma história de engenho suíço, de uma jogada de marketing, e de uma polémica curiosa entre quem a adora e quem já não a aguenta.
Esta é a história da Helvetica, e de como uma fonte pode dizer tanto precisamente por parecer não dizer nada.
1957: nasce na Suíça (com outro nome)
A Helvetica nasceu em 1957, na fundição Haas, na Suíça, das mãos de Max Miedinger, com a orientação de Eduard Hoffmann. O objetivo era criar uma sans-serif (sem serifas) moderna, limpa e neutra, alinhada com o que ficaria conhecido como o Estilo Tipográfico Internacional, a famosa Escola Suíça, obcecada pela clareza, pela grelha e pela ausência de ornamento.
Só que não se chamava Helvetica. O nome original era “Neue Haas Grotesk” (“nova grotesca da Haas”, grotesca é como se chamavam as sans-serif). Funcional, mas pouco vendável internacionalmente.
Por volta de 1960, para vender a fonte fora da Suíça, a fundição alemã Stempel rebatizou-a Helvetica, do latim Helvetia, "Suíça". A ideia era brilhante: associar a letra à reputação de precisão, neutralidade e qualidade suíças. "Neue Haas Grotesk" não dizia nada a um cliente em Nova Iorque; Helvetica vendia "design suíço" numa palavra. Foi marketing tipográfico no seu melhor, e funcionou: o nome ajudou a fonte a conquistar o planeta.
Porque conquistou tudo
A Helvetica espalhou-se como nenhuma outra fonte. Porquê? Pela sua grande virtude: a neutralidade.
- Clareza e legibilidade: formas limpas, abertas, fáceis de ler em qualquer tamanho.
- Neutralidade: não “grita” personalidade nem moda. Parece objetiva, séria, intemporal, uma fonte que serve para tudo sem incomodar.
- Versatilidade: funciona em logótipos, sinalética, formulários, embalagem, ecrã.
Essa neutralidade tornou-a a escolha-padrão da identidade corporativa. Marcas gigantes adotaram-na (ou versões dela) pela sensação de confiança e modernidade que transmite. Tornou-se a língua franca da sinalética e da informação, incluindo, com o tempo, sistemas de transportes e instituições por todo o mundo. A Apple usou-a durante anos como tipo de sistema. A Helvetica passou a estar, literalmente, em todo o lado.
Arial: a “sósia” que gera confusão
Não se pode falar de Helvetica sem falar da Arial. Lançada pela Monotype em 1982 e popularizada por vir incluída no Windows, a Arial é tão parecida com a Helvetica que muita gente as confunde, e essa parecença não é acaso: era uma alternativa que imitava as proporções da Helvetica sem pagar a sua licença.
Há diferenças subtis (repara nas pontas de certas letras, como o “R”, o “a”, ou a cauda do “t” e do “G”), mas, à distância, enganam quase toda a gente. Para muitos designers, a Arial é uma espécie de “Helvetica de imitação”, o que alimenta um certo esnobismo tipográfico. Saber distingui-las é quase um teste de iniciação no design.
Amor e cansaço: a polémica
Aqui está a parte curiosa. A mesma neutralidade que fez o sucesso da Helvetica gera opiniões opostas:
- Os apaixonados veem-na como a fonte perfeita, racional, atemporal, o triunfo da clareza sobre o ornamento. Em 2007, no seu 50.º aniversário, ganhou até um documentário (chamado simplesmente Helvetica), algo raríssimo para um tipo de letra.
- Os críticos dizem que está gasta de tão usada, que a sua “neutralidade” se tornou falta de personalidade, e que recorrer à Helvetica é, muitas vezes, não fazer uma escolha. Acusam-na de ser a opção preguiçosa, o “cinzento” do mundo das fontes.
A verdade está no meio: a Helvetica é uma ferramenta excelente, mas, como qualquer ferramenta, pode ser usada com mestria ou por inércia. Escolhê-la de propósito, por ser a voz certa para a mensagem, é design; escolhê-la por defeito, por não saber mais nenhuma, é outra coisa.
Poucos objetos de design tão "banais" foram tão celebrados. O documentário Helvetica (2007), de Gary Hustwit, transformou uma simples fonte num tema cultural, entrevistando designers de todo o mundo a favor e contra ela. É a prova de que a Helvetica deixou de ser apenas uma letra, tornou-se um símbolo de toda uma filosofia de design: a do modernismo que acreditava que a forma deve servir, calada, a função.
Confusões comuns
“A Helvetica sempre se chamou Helvetica.” Não. Nasceu em 1957 como Neue Haas Grotesk; só foi rebatizada Helvetica por volta de 1960, para a vender internacionalmente com o “selo suíço”.
“Arial e Helvetica são a mesma fonte.” São diferentes, embora muito parecidas. A Arial (1982) imita as proporções da Helvetica. Há diferenças subtis nas terminações de várias letras, mas enganam quase toda a gente.
“Usar Helvetica é sempre a escolha segura e certa.” É segura, mas nem sempre certa. A sua neutralidade serve muitos contextos, mas pode também ser inexpressiva onde se quer personalidade. O bom uso é escolhê-la de propósito, não por inércia.
“Helvetica é uma fonte antiga e ultrapassada.” Tem mais de 60 anos, mas continua omnipresente e atual, a sua clareza não envelhece. O que muda é a forma como se usa.
Em resumo
A Helvetica nasceu na Suíça em 1957 como Neue Haas Grotesk, fruto da Escola Suíça e das mãos de Max Miedinger e Eduard Hoffmann. Uma mudança de nome por marketing, invocando a precisão suíça, lançou-a no mundo, e a sua grande virtude, a neutralidade, fê-la a fonte-padrão da identidade corporativa e da sinalética. Gerou uma “sósia”, a Arial, e uma polémica entre quem a venera e quem a acha gasta.
É, talvez, o melhor exemplo de como uma fonte comunica: a Helvetica diz “sou objetiva, séria e moderna” precisamente por parecer não dizer nada. E é por isso que, mais de meio século depois, continua a olhar para ti de quase todos os letreiros do mundo.