Há uma técnica de impressão que se tornou quase um movimento estético: a risografia. Fanzines, cartazes de concertos, ilustração independente, edições de autor, há um “look” inconfundível de cores vivas, ligeiras imperfeições e texturas que só a riso dá. Mas o que é, exatamente, e porque é que tantos designers se apaixonaram por ela?
O que é a risografia
A risografia (ou só “riso”) é uma técnica criada pela japonesa Riso Kagaku nos anos 1980. A máquina, uma Risograph, parece uma fotocopiadora grande, mas funciona como uma serigrafia automatizada: é, na prática, um sistema de impressão por estêncil rotativo.
Para cada cor, a máquina queima um master (um estêncil) enrolado num tambor cheio de tinta. O tambor roda, a tinta passa pelos furos do estêncil e imprime no papel. Cada cor tem o seu tambor, e é aqui que está o segredo do visual riso.
Tintas spot, não CMYK
A riso não trabalha em CMYK. Trabalha com cores diretas (spot): cada tambor tem uma tinta de uma cor específica, azul-federal, rosa-flúor, verde, amarelo, preto, e dezenas de outras, incluindo flúor e metálicas que o CMYK nunca alcança.
Para imprimir a “cores”, combinam-se tambores: imprime-se primeiro uma cor, troca-se o tambor, imprime-se a segunda por cima, e assim por diante. As cores sobrepõem-se e misturam-se opticamente, um azul sobre um rosa cria um roxo, com aquela textura de retícula visível que é a assinatura da técnica.
A riso dá cores flúor e vibrantes impossíveis em CMYK, custa pouco em tiragens pequenas/médias, é relativamente ecológica (tintas à base de soja, baixo consumo) e tem uma imperfeição charmosa, pequenos desalinhamentos de registo, variações de tinta, textura granulada. Num mundo de impressão digital perfeita e asséptica, a riso tem alma. É por isso que domina o universo das fanzines e da ilustração de autor.
Como se prepara um ficheiro para riso
Aqui está a grande diferença para o resto da impressão: preparas o ficheiro separado por camadas de cor, uma camada por tambor.
- Decide a palete, quantas cores (tambores) vais usar. Muitos trabalhos riso são a 1, 2 ou 3 cores, precisamente para aproveitar a estética e o custo.
- Cria uma camada por cor. Cada cor é entregue como um ficheiro em tons de cinza (ou preto), onde o preto representa a quantidade de tinta daquela cor. O estúdio de riso converte cada camada num tambor.
- Pensa nas sobreposições. Onde duas camadas se cruzam, as tintas misturam-se. Planeia isso, é o que cria as cores extra.
- Aceita o registo imperfeito. Não há registo perfeito na riso; abraça-o como parte do estilo (ou usa-o de propósito, com desalinhamentos deliberados).
É um modo de pensar parecido com a serigrafia e com a lógica das cores diretas Pantone: pensas por camadas de tinta, não por uma imagem CMYK achatada.
Onde brilha (e onde não)
Ideal para: fanzines, cartazes, ilustração, edições de autor, postais, papelaria criativa, convites com personalidade, tiragens de dezenas a milhares.
Menos indicada para: fotografia realista (a riso reproduz fotos com retícula grosseira e cores limitadas, pode ser um efeito giro, mas não é fidelidade), trabalhos que exigem cor exata e consistente, e grandes volumes industriais (aí o offset ou o digital ganham).
As imperfeições “features”, não “bugs”
Quem vem da impressão tradicional estranha, mas na riso estas “falhas” são parte do charme:
- Desalinhamento de registo: as cores raramente encaixam ao milímetro.
- Roller marks: ligeiras marcas/riscas na direção de impressão.
- Variação de tinta: zonas grandes de cor podem ficar irregulares.
- Decalque: a tinta seca devagar e pode “borrar” se manuseada cedo.
Bons estúdios de riso sabem mitigar isto, mas ninguém procura riso para ter perfeição digital. Procura-se pelo oposto.
Confusões comuns
“Risografia é uma fotocopiadora.” Parece, mas o mecanismo é estêncil com tinta (como serigrafia), não toner fundido por calor. O resultado e o tato são completamente diferentes.
“Posso mandar um ficheiro CMYK.” Não. A riso é spot, por camadas. Tens de separar o trabalho por cor/tambor. Fala com o estúdio sobre a palete de tintas disponível.
“As cores vão sair exatas.” A riso é a antítese da cor exata e consistente. Se precisas de Pantone calibrado, é offset. Se queres aquele azul-flúor com textura, é riso.
Em resumo
A risografia é impressão por estêncil rotativo com tintas spot (incluindo flúor e metálicas), preparada por camadas de cor, com um visual texturado e imperfeito que se tornou uma linguagem estética própria. Barata em tiragens pequenas, vibrante e cheia de carácter, é a queridinha de designers, ilustradores e do mundo das fanzines. Pensa nela como serigrafia com a praticidade de uma copiadora.